Sabrina Noivas 131 - Husband By Inheritance
 
O que mais uma mulher poderia desejar?Uma misteriosa doao deixou Abby Blakely com a casa de seus sonhos. S que fazia parte do pacote um ex-policial mal-humorado que sua filha pequena decidira que seria o pai perfeito!Charmoso e atraente, Shane McCall seria tambm um marido perfeito se a palavra "casamento" no lhe causasse um gosto amargo na boca. As lembranas de uma vida com a qual ele sonhara mas que fora destroada haviam deixado uma cicatriz onde antes existira um corao. Agora o celibatrio convicto estava s voltas com Abby e sua adorvel filhinha, lutando contra sentimentos h muito enterrados. Sentimentos cada vez mais difceis de negar...

Digitalizao e correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 2002
Publicao original: 2001
Gnero: Romance contemporneo
 Estado da Obra: Corrigida

      

Srie The Wedding Legacy
Ordem	Ttulo	Ebook	Data
1	Husband by Inheritance
Sabrina Noivas 131 - 
Marido Por Herana	Jul-20012	The Heiress Takes a Husband
	Aug-20013	Wed by a Will
Sab.Noivas 135 - 
Meu Sonho  Voc!	Sep-2001

     

PRLOGO

	Srta. Blakely, garanto-lhe que a reunio no vai demorar.
	Obrigada  Abby murmurou, pouco  vontade no escritrio do advogado.
A decorao do recinto demonstrava bom gosto e valor elevado. A mesa de caf escura era de nogueira. Os sofs macios eram em couro castanho-claro, os tapetes persas em tons de vinho e a luz difusa acalmava o nervosismo.
Abby nunca fora a um escritrio de advocacia e se no houvesse recebido o convite e uma passagem area, duvidava que ali estivesse naquele momento.
Quem teria feito a doao?
A carta registrada no deixara dvidas. Fora nomeada beneficiria de um legado substancial, mas o doador mantivera-se annimo. O telefonema ao advogado nada esclarecera. Apenas recebera a informao para comparecer aos escritrios da Hamilton, Sweet e Hamilton, em Miracle Harbor, Oregon, naquele dia, 15 de fevereiro, s dez da manh.
 Srta. Blakely, no quer mesmo um caf?
A recepcionista sorria com bondade e Abby esforava-se para esconder o constrangimento. No estava acostumada a frequentar ambientes to ricos. Seu guarda-roupa era simples e prtico, para ser usado em casa ou no playground. Resistente  pequenas man-cnas de mo, grama e saliva. Viera com uma saia azul-marinho, tnica combinando e jaqueta. O conjunto custara menos de cinquenta dlares.
Abby arrumou os cabelos loiros e curtos, baseando-se na prpria imagem refletida na superfcie polida da mesa de caf.
Longe da filha de dois anos h menos de vinte e quatro horas, sentia um vazio no corao que se aprofundava a cada minuto. J eram quase dez e trinta.
	Houve algum problema?  Abby perguntou, ansiosa.
Arrependia-se de ter vindo at ali, de haver aceitado a estranha convocao, imaginando que tudo iria mudar, no momento em que refletia como proporcionar uma existncia pacfica e estvel para a filha, Bele.
E fora exatamente por isso que viera. Embora ctica. tivera a intuio de que a doao lhe possibilitaria dar a Belle um belo padro de vida. Uma pequena casa, em vez do apartamento. Uma vizinhana agradvel perto de um parque. Uma mquina de costura nova que lhe permitiria aceitar mais trabalho.
Sonhando acordada!, Abby repreendera-se.
Ainda incrdula, recebera uma passagem de avio no valor de vrias centenas de dlares. Em Portland, uma limusine a esperava e a deixara no hotel mais luxuoso de Miracle Harbor. Trouxera na bolsa a carta com a garantia de que o legado era considervel.
A esperana a fizera cruzar o continente, de Illinois at aquela pequena cidade do Oregon. Miracle Harbor, construda em forma de meia-lua nas colinas que rodeavam uma baa, parecia um carto postal. Fileiras de belas casas antigas com telhados de madeira atrs de cercas brancas e rododentrosf o ar quente e o cheiro do mar.
	Houve algum problema?  ela insistiu.
	No, claro que no! Estamos esperando a chegada dos outros convidados.
	Outros?  Abby surpreendeu-se.
Foi a vez da recepcionista ficar sem jeito, como quem deixava escapar um segredo profissional.
A porta foi aberta e ambas ficaram aliviadas.
Uma mulher entrou na sala. Usava culos escuros e um casaco curto de peles. A saia longa de seda verde serpenteava ao redor das pernas esbeltas, enquanto ela se movia com determinao. Os cabelos, cuidadosamente penteados, ondulavam de maneira atraente ao redor dos ombros.
Abby observou um qu de familiar na recm-chegada, que devia ter peso e altura semelhantes aos seus. Os cabelos tambm eram loiros.
	Ol. Sou Brittany Patterson. Sou...
A jovem mulher parou de falar, assim que viu Abby. Devagar, tirou os culos e Abby pensou que iria desmaiar.
O rosto da outra era o mesmo que a fitava diariamente atravs
do espelho.
A maquilagem mais ousada e as sobrancelhas melhor delineadas deixavam aquela mulher mais atraente, embora fossem idnticas em muitos aspectos.
A porta tornou a abrir-se e Abby virou-se.
Santo Deus! Precisava controlar a intensidade das emoes que sentia.
Uma quarta mulher entrou, afobada e diferente em tudo da que usava o casaco de peles. Usava um conjunto de jeans desbotado e trazia os cabelos longos presos em um rabo-de-cavalo.
O rosto era idntico e a cor dos cabelos, tambm. E os admirveis olhos azuis, com o mesmo halo marrom ao redor da pupila.
Trmula, Abby ergueu-se do sof, como se estivesse em transe. Tornou a sentar-se. Em silncio, as outras duas tambm se sentaram, atnitas.
A funcionria trouxe caf para as trs. Se a situao no fosse to bizarra, Abby teria achado graa. As duas recm-chegadas tambm tomaram a bebida com um pouco de creme e trs tabletes de acar. Exatamente como Abby gostava.
	Bem, se no se trata de uma iluso de tica  a do casaco de peles falou , suponho que devemos ser parentes.
As trs deram uma risada idntica no tom e na intensidade, e comearam a falar ao mesmo tempo.
	Algum tinha ideia do que nos esperava?  Abby perguntou, com voz hesitante.  Eu sabia que fui adotada, mas...
	Eu tambm tinha conhecimento da minha adoo  a que usava saia longa afirmou , mas no que tivesse irms.
	Eu no tive pais adotivos  a que vestia de jeans declarou, hesitante.  Morei com minha tia EUa at os dez anos. Segundo ela, meus, ou melhor, nossos pais morreram em um acidente de carro.
	E evidente que, alm de irms, somos trigmeas  a mais bem-arrumada deduziu, enquanto elas se entreolhavam, abismadas.  Sou Brittany.
	Abigail. Abby  ela se apresentou, emocionada.
	Corrine. Corrie.
	O sr. Hamilton ir receb-las agora  a recepcionista interrompeu.
As jovens, admiradas e olhando-se de vis, seguiram a funcionria pelo saguo at a outra sala.
O sr. Hamilton era um homem digno tanto na aparncia, quanto nas maneiras. Os cabelos brancos e as rugas davam-lhe um aspecto de quem estava prximo da aposentadoria. Ele pareceu assombrado, ao ver as trs mulheres idnticas entrarem em seu escritrio e sentarem-se  sua frente.
	Sinto muito, eu no sabia. As senhoritas tm sobrenomes diferentes. No podia supor...
O homem fixou-se nos papis sobre a mesa, pensativo. Depois voltou a fit-las, circunspecto.
	Trigmeas...  ele tambm concluiu. Vocs nunca se encontraram?
O sr. Hamilton ficou ainda mais srio, ao ver os gestos de negao simultneos.
	Peo-lhes que me perdoem. Eu jamais teria proposto uma surpresa dessas para vocs, se soubesse da verdade. No podia imaginar que ela fosse...  ele pigarreou.  Como eu disse na carta que receberam, minha cliente quer fazer uma doao a cada uma de vocs.
	Quem  sua cliente?  Brittany perguntou, bem mais  vontade no ambiente refinado do que as outras duas.
	No estou autorizado a revelar, mas devo ler uma carta para as trs.
Ele apanhou um papel da escrivaninha e segurou- a uma certa distncia.
	Queridas Abigail, Brittany e Corrine  o advogado leu em voz alta , h muitos anos fiz um juramento para a me de vocs. Ela morreu minutos depois de conseguir que eu lhe fizesse uma promessa. Para meu constrangimento, fui incapaz de cumprir o prometido. Eu as reuni com a esperana de que esse gesto pudesse reparar o que devo  sua me e a vocs. Tambm destinei uma doao que prover a cada uma aquilo que for mais necessrio em suas vidas. Meu advogado, sr. Jordan Hamilton, descrever a natureza dos legados e as condies a que esto atreladas. Eu lhes desejo muitas felicidades.
	Qual foi a promessa que ela fez  nossa me?  Abby perguntou, ansiosa por entender aquelas circunstncias surpreendentes.
	Fora os legados e as condies, tambm no conheo outros detalhes.
	 O senhor poderia ser mais claro?  Brittany pediu, desconfiada.
	Muito bem. Para receberem seus legados, devem ficar em Miracle Harbor durante um ano.  O sr. Hamilton deu uma tossidela, pouco  vontade.  E devem casar-se nesse perodo.
Abby fitou-o, assombrada. Certamente tratava-se de uma piada. Tinha de ser. Mas o advogado manteve a seriedade. Ela lanou um olhar de esguelha na direo das irms.
Brittany parecia indignada. Corrine fitava a paisagem pela janela, sem demonstrar os sentimentos, mas Abby percebeu o que se passava na mente da outra. Corrie estava apavorada.
	E no que consistem os bens deixados?  Brittany perguntou, estreitando os olhos e cruzando os braos na altura do peito.  Pelo menos so vantajosos?
O advogado fitou-a com seriedade, arrumou documentos espalhados e, comeando por Abby, disse-lhes o que o estava incumbido de contar.
CAPTULO I

Mesmo depois de tantos anos, ele ainda dormia como se houvesse a possibilidade de algum esgueirar-se para dentro do quarto e encostar-lhe um revlver nas tmporas.
Apesar de encontrar-se em Miracle Harbor, no Oregon, onde tais coisas pareciam inimaginveis.
Naquele momento, desperto e estendido na cama, tenso, ouvido atento, considerou o que teria sido aquele pequeno barulho que o despertara no meio da noite. O relgio marcava trs horas da madrugada.
Devia ser a buzina que anunciava o nevoeiro, ele pensou, e no o rangido do porto da frente, que precisava ser lubrificado. Descontraiu-se um pouco, fechou os olhos, disposto a voltar a dormir. Odiava as noites insones, quando se mostrava incapaz de exercer a disciplina costumeira sobre sua mente. Por motivos ignorados, nesses momentos as lembranas ameaavam sua paz artificialmente construda.
Tornou a ouvir o som.
Um rudo abafado d passos no jardim. Depois, o raspar da tbua solta no segundo degrau da varanda. Quando escutou o girar da maaneta da porta da frente, levantou-se rapidamente. Sem fazer o menor barulho, foi at a janela.
Um carro velho estava parado na rua, com um trailer a reboque. Ladres? Planejando limpar a casa?
Ficariam desapontados. Nada ali havia de valor. Seu lar era espartano. Nada de televiso, ou aparelhagem sofisticada de som. Apenas um computador.
Ser que alguma vez se interessara por coisas materiais? Teve dificuldade de lembrar-se desse detalhe, mas ocorreu-lhe uma viso. Stacey, sua esposa, apontava o preo extravagante exibido na etiqueta da vitrina de uma loja, fitava-o e ria, com uma certa tristeza no olhar.
Seu corao confrangeu-se ao lembrar-se do que procuravam naquele dia.
Um bero de vime.
A escurido, providencial para o intruso, abateu-se sobre ele. Vestido apenas de cueca folgada, como costumava dormir, desceu a escada e atravessou a casa escura. Cauteloso e furtivo, movia-se sem emoes, como era a sua segunda e bem treinada natureza.
Foi at a porta dos fundos e abriu-a sem fazer rudo, j com o plano formado. Contornaria a casa e surpreenderia o gatuno na varanda estreita da frente. Ele o pegaria em flagrante. Com certeza.
O meliante havia escolhido a casa errada.
A do agente Shane McCall, da Diviso de Narcticos, Aposentado.
O nevoeiro denso contorcia-se em espirais e o cimento da calada mostrava-se gelado sob seus ps descalos. Sua pele nua raspou de um lado nos sarrafos rsticos de sua casa e de outro, molhou-se nas folhas flexveis dos rododentros cerrados.
Havia uma silhueta curvada diante da porta. A noite muito escura e a nvoa no permitiram uma viso adequada. Shane apenas distinguiu um bon de beisebol e uma figura pequena demais para ser ameaadora.
Uma criana? A raiva abandonou-o e ele* fitou o intruso girar a maaneta novamente. Estaria tentando forar a fechadura? Shane imaginou se deveria chamar a polcia. Talvez Morgan estivesse trabalhando naquela noite. Depois de concluda a tarefa, ambos poderiam passar o resto da madrugada contando histrias de veteranos.
O que seria prefervel a voltar para a cama, onde as lembranas o esperavam.
Mesmo sabendo que avisar o posto policial seria uma boa opo, continuou andando p ante p at os degraus da varanda.
Ocorreu-lhe que talvez devesse ter trazido o revlver. Um meliante pequeno a ponto de evitar um confronto poderia estar prevenido. Uma faca ou at uma arma de fogo. O que seria perfeitamente possvel para o tipo de criana que pretendia invadir uma casa s trs da manh.
Shane, acostumado a um raciocnio rpido, decidiu fingir que estava armado.
Uma tarefa no muito fcil, j que estava praticamente sem roupa, mas no impossvel. Aproximou-se da pequena escada e ordenou, com o autoritarismo costumeiro em tais eventos.
	Levante as mos para que eu possa v-las e no se vire.
A figura estacou.
	Voc me ouviu. Mos para cima!
	No posso  a voz parecia amedrontada e infantil.
	No pode?  Shane perguntou, com dureza.   melhor que o faa logo!
	Se eu fizer isso, posso derrubar o beb  a voz apavorada tremia.
"O beb?"
Shane subiu os degraus de dois em dois, ps a mo nos ombros do intruso e virou-o.
Mas era "ela"! Ou melhor, duas "elas"!
Uma bem crescida e a outra, uma menina de cerca de dois anos. Ambas o olhavam com olhos azuis arregalados e cintilantes. Com halos castanhos ao redor das pupilas.
Shane afastou a mo do ombro da jovem, passou-a nos prprios cabelos molhados e praguejou.
Quando sentiu o pontap na canela, a dor lembrou-o da regra principal. Jamais subestimar o inimigo.
	Fogo!  ela comeou a gritar.  Fogo!
Imediatamente, Shane tapou-lhe a boca, antes de que os vizinhos acordassem e o vissem em trajes menores.
Ela era muito bonita. Cabelos loiros, curtos e lisos sob o bon, e um rosto adorvel. Pele macia e nariz bem-feito. Os olhos, contudo, eram o que mais chamavam a ateno naquela fisionomia. Enormes e azuis como o mar de Kailua-Kona, no Hava, com traos marrom. A combinao era de pasmar. E brilhavam, com lgrimas mal contidas.
Shane tornou a praguejar. A jovem tremia e o beb, fitando a me com ansiedade, contorceu o rosto e comeou a chorar.
O barulho pareceu ecoar no fog e Shane relanceou um olhar pelas casas vizinhas.
	Prometa que no vai gritar ou chamar os bombeiros  ele pediu, observando-lhe a beleza, mas tambm a perturbao.
Ela concordou e afastou-se de costas, at encontrar a porta da frente da casa de Shane. Os olhos continuavam arregalados e abraava a menina, como a proteg-la contra ele.
	Afaste-se de ns, seu degenerado.
	Degenerado? Eu?
	Isso mesmo! Escondendo-se na noite, de cueca,  espera de uma mulher indefesa que volta para casa. Isso  ser um pervertido!
	Para casa?  Ele fitou-a, espantado.
Apesar da voz trmula, os olhos cintilavam de indignao. Shane teve certeza de que ela o enfrentaria sem receio e independente de sua constituio frgil, caso ele ousasse aproximar-se.
Ela confirmou com um gesto de cabea e passou a lngua nos lbios, nervosa. Tambm era evidente que a jovem procurava fugir.
Shane cruzou os braos sobre o peito.
	Acontece que esta casa  "minha". E pensei que "a senhora"
fosse um gatuno.
Boquiaberta, ela estreitou os olhos, com suspeita.
Shane imaginou o que ela estaria pensando, observando-lhe a confuso evidente. Que pervertidos deviam ser extremamente inteligentes.
A jovem procurou o nmero moldado em ferro batido na parede da varanda.
Shane no tinha certeza se j havia sido to insultado. Degenerado! Naquele momento, notou que a jovem estava com olheiras. Exausta?
Ela o olhou por mais alguns instantes e Shane notou que a tenso cedia.
	Oh, Deus! Cometi um engano. Estou muito cansada e...
Espantado, acompanhou o trajeto das lgrimas que desciam pelo rosto formoso. Ela no usava qualquer tipo de maquiagem, o que o agradou de maneira irracional. E tambm tremia sob o agasalho leve que no a protegia do frio da noite.
A criana intensificou o choro, ao ver as lgrimas da me.
A mulher endireitou-se e levantou o queixo. Aquele gesto atingiu um corao que, at momentos atrs, estava totalmente endurecido.
	O senhor poderia indicar-me um motel?
	Poderia, mas est sem sorte. Por que "fogo"?
	Como disse?
	A senhora gritou "fogo" por achar que pervertidos tm medo das chamas? Como os vampiros da cruz?
Abby riu, nervosa.
	Li, uma vez, que ningum socorre uma mulher que chama por socorro, mas que todos correm quando grita "fogo".
Shane percebeu logo que no se tratava de uma moradora da regio. Ela falava em tticas de sobrevivncia de uma mulher de cidade grande. A voz intrigou-o. No acompanhava a suavidade da fisionomia. Era um tanto dura.
	Pode dizer-me por que nos ltimos oitenta quilmetros, s encontrei placas de "Lotado" nos motis.  Impaciente, ela limpou os olhos com a manga do casaco, passou a mo no rosto da criana e beijou-a na ponta do nariz.
Foi um efeito mgico.
A menina, uma cpia fiel da me, exceto pelos cabelos loiros que eram cacheados, parou de chorar. Depois virou a cabea e fitou Shane solenemente. Por certo, a aparncia dele no a agradou, pois comeou a soluar de novo, dessa vez com maior intensidade.
	H um resort em construo nos limites da cidade e a regio est lotada de empreiteiros, fornecedores, carpinteiros e encanadores... No havia sequer um quarto vago naquela altura.
Exceto,  claro, a sua casa vazia, ele falou para si mesmo. Trs quartos. Um em cima, dois embaixo. At h poucos meses, o lugar podia ser usado por dois locatrios. Com a permisso do locador, Shane transformara a cozinha superior em um sala de trabalho.
"No faa isso", ele advertiu-se.
No adiantou. Shane slntiu-se culpado por t-la assustado. Alm disso aborrecia-o pensar que a criana acabaria por acordar toda a vizinhana.
	Talvez seja melhor entrar um pouco.
Shane alcanou a porta que,  claro, estava trancada. O choro da menina o afetava tanto que ele teve vontade de arrombar a madeira velha. Mas teve de conter-se.
	No se preocupe  ela no aceitou, com firmeza e desconfiana.  Irei embora. Tudo bem. De verdade. Estou cansada de tanto dirigir. Devo ter-me enganado de endereo.
Ela tentou passar por ele e parou. A escada era estreita demais para os dois. Foi ento que Shane deu-se conta de que ela no desceria por ali sem toc-lo e que vestia apenas roupas de baixo.
Mas, afinal, era um policial acostumado com a obedincia, mesmo estando de cueca. Folgadas, graas a Deus, e que poderiam ser confundidas com short de ginstica sob o efeito de um nevoeiro. Pelo menos, era o que esperava.
	No saia daqui  ele comandou.
Abby continuava apavorada. Estava impresso em seu rosto lindo.
Mesmo no sendo ele o degenerado que se escondia no matagal, ela talvez pensasse haver batido na porta do nico assassino de Miracle Harbor.
Sou um policial  ele explicou, relutante.  Aposentado. Ela no pde deixar de ver que ele falava a verdade. Pela postura, pelo olhar e corte de cabelos.
A jovem anuiu, mas assim que Shane desceu os degraus, ela passou correndo por ele e foi para a rua. Ele no a deteve. Dali a instantes, escutou o barulho das traves das portas do carro, depois de ela estar instalada dentro, em segurana.
A seguir, o barulho desagradvel da chave virando na ignio.
Pacincia, no era problema dele.
Shane deu a volta por trs da casa. Entrou e ordenou a si mesmo que fosse para a cama. Mas a sua mente, sempre indisciplinada quela hora da noite, ficou  escuta do carro partindo. Nada.
Abriu a janela, olhou para fora e ouviu novamente o ranger da partida.
	Mas que diabo!  Apanhou o jeans que estava nos ps da cama.  No acredito que isso est acontecendo comigo.
Apesar da tbia dolorida que deveria servir-lhe de aviso, entendeu que uma certa vulnerabilidade naquela mulher o atingira. Gostaria de deix-la entregue  prpria sorte, mas no conseguia. Nem ela e nem a criana estavam com roupas grossas o suficiente para enfrentar o frio da noite, mesmo dentro de um carro.
Apressado, vestiu a cala, desceu, acendeu a luz da varanda e abriu a porta da frente.
Ela poderia ter entrado, se quisesse, ele refletiu, irritado. Mas ela no o fez.
Teimosa. Estava escrito em sua fisionomia. Linda, mas obstinada. Shane olhou pelo vo.
O vento afastara um pouco a nvoa e podia distinguir-se o que acontecia. A jovem estava com a testa encostada no volante. Provavelmente chorava. Mas certamente no pediria a ajuda de um depravado.
Shane suspirou e vestiu uma jaqueta sobre o peito desnudo.
H vrios anos, fizera um juramento. Proteger e prestar servios. Na ativa ou no, aqueles votos faziam parte de sua existncia, como o sangue que corria em suas veias. Ficou quase aliviado ao descobrir que sua tragdia pessoal no lhe roubara aquela parte de sua natureza.
Seria incapaz de deix-la do lado de fora naquele frio.
Ela no percebeu a aproximao e assustou-se, quando Shane bateu no vidro. De novo, ele acabou por amedront-la, o que o preveniu para no aceitar nenhum cargo no departamento de donzelas em apuros.
Abby abriu apenas uma fresta no vidro.
	Sim?
Velhos hbitos dificilmente morriam. A placa era de Illinois. Havia uma etiqueta adesiva de um estacionamento de Chicago no pra-brisa. Ela estava muito longe de casa.
	Quer que eu chame algum? O servio de socorro da estrada?
	Estou bem  ela afirmou, orgulhosa.  Em Chicago, essa  uma temperatura ideal para fazer piquenique.
	Imagino.  Shane viu que ela continuava a tremer.  D para notar. A criana tambm est gelada?
Abby fitou a filha com desnimo.
	O senhor  mesmo um policial?
	Fui, sim.
	O senhor tem um distintivo?
	No tenho mais.
A irritao de Shane cresceu. Ocorreu-lhe que era um sentimento que no experimentava h bastante tempo e que o lembrou estar vivo. Irritado, porm com vida.
	Minha senhora, ser que terei de implorar para que entre?
Ela hesitou, pensou por alguns momentos, suspirou resignada, destravou as portas e segurou a filha.
Acompanhou-o pela calada e Shane abriu a porta para ambos.
A menina, aninhada no colo da me, chupava o polegar. Ao fit-lo, fez uma careta e abriu a boca a tal ponto, que ele pde ver-lhe as amgdalas. Mas no chorou. Ela vestia um suter cor-de-rosa de tric, com capuz e pompons.
As lembranas o atingiram com tanta fora, que Shane chegou a bater a porta.
O beb deles seria uma menina. O exame de ultra-som o confirmara. Stacey comeara a comprar coisas rosas. Vestidos pequenos e sapatinhos.
	O senhor est bem?  a jovem perguntou.
No, no estava. Dois anos haviam se passado e continuava pssimo. Teria de aceitar que jamais iria recuperar-se. O tempo no fora o melhor remdio.
	Claro, e por que no?  ele mentiu.  Entre.
Hesitante, ela cruzou a soleira. A filha agarrou-se em seu pescoo e espiou ao redor, curiosa.
	Abby Blakely  ela apresentou-se, liberou um brao e estendeu a mo.
Ela era do tipo mignon e sob a luz, parecia mais velha. Vinte e cinco ou talvez vinte e oito anos. No era a adolescente que o bon sugeria. Uma mulher encantadora. Esguia e com curvas nos lugares certos.
Ele cumprimentou-a e notou que a mo, embora pequena era forte.
	Shane McCall.
	O senhor foi mesmo um policial?
	Por que acha to difcil de acreditar?
	O que me parece estranha  a sua aposentadoria.
	Ah...
	O senhor no parece to velho.
O espelho tambm lhe pregava a mesma pea. Olhava-se nele e via um homem muito mais jovem do que na verdade se sentia.
	Trinta anos.
	No  um pouco jovem para aposentar-se, sr. McCall?
	Shane, por favor. Ah, sim, suponho. Atualmente sou consultor em treinamentos policiais. Por que no entra e vem sentar-se?
Ela fitou-lhe o dedo onde brilhava uma aliana.
	Ser que no acordaremos sua esposa?
	No, sou vivo.
	Sinto muito... O senhor tambm parece muito jovem para um vivo.
	Diga isso a Deus.  Ele no pde evitar a amargura na voz.  Como , vai entrar ou no?
Abby hesitou, como se fosse chorar de novo. Em seguida olhou atentamente e falou:
	Nem o sei o que quero fazer. Esto to cansada... J sei. Vou ligar para uma de minhas irms.
Shane gostou do amor que ela imprimia  palavra "irms". Certamente elas no se incomodariam de serem acordadas no meio da noite. Mas porque ela no pensara nisso antes?
Abby entregou-lhe a filha e curvou-se para tirar os sapatos.
Ele se sentira melhor, enquanto no lhe merecera a confiana. No tinha muito jeito com crianas pequenas. Desajeitado, segurou o corpo rechonchudo a uma certa distncia.
	Ah, pode deixar os sapatos.
	Est louco? Vai sujar o cho.
Ele fitou os tacos, sem ter muita certeza se j os vira antes. Madeira. Precisando de cuidados.
A menina, tal como a me, fitava-o com desconfiana.
	Eu, Belle  ela finalmente falou.
	Muito bem. Ol.  Ele continuava a segur-la afastada.
A pequerrucha sacudiu-se e Shane sentiu a energia e a fora infantis.
Abby endireitou-se e Shane tentou devolver-lhe a filha.
	Ser que o senhor poderia segur-la mais um minuto? S at eu usar o telefone?
Seria uma tolice recusar.
	Por aqui.
Shane precedeu Abby pelo hall, passou pela porta fechada da sute principal vazia e chegou  cozinha. A criana balanou-se de novo em seus braos esticados.
	Ela no morde.
	Ah...  Shane noimudou de posio e Belle agitou-se, desconfortvel.
	Ela est com mau cheiro?  Abby perguntou
	Belle no cheira mal  a menina gritou, indignada.
	Hum...  Shane tratou de afrouxar um pouco os braos e segurou-a mais perto de si. Sentiu-lhe o aroma delicioso e um aperto no corao.
Belle percebeu a emoo, fitou-o com os olhos redondos, tocou-lhe o rosto com os dedinhos macios, agarrou-lhe a gola da jaqueta e encostou-se nele.
A menina aconchegou os cachos loiros sob o queixo dele, o rosto na clavcula e comeou a chupar o polegar com rudo. A baba escorreu pela gola da jaqueta que ele no havia tirado para no tornar a ofender a sensibilidade da sra. Blakely com a viso de seu peito nu.
	O telefone est aqui.
A intrusa fitou rapidamente a cozinha, to espartana quanto o quarto e tirou o fone do gancho. Ele ouviu-a pedir informaes. Como  que ela no sabia o nmero do telefone das irms?
Abby desligou, desanimada.
	Elas ainda no chegaram aqui. Minhas irms.
	No chegaram?
	Ns todas estamos nos mudando para c.  uma longa histria.  Abby parecia exausta.
	Todas? De quantas dzias est falando?
Abby deu uma pequena risada.
	Apenas trs. Somos trigmeas.
Trs Abbys. Era um pensamento um tanto assustador que ele no queria enfrentar. A menina adormecera em seu colo e ressonava suavemente. Shane observou o calar do corpo pequenino, o brilho dos cachos dourados e retesou-se, com medo de que algum novo sofrimento o atingisse.
	Eu chamarei um socorro mecnico da estrada. Mas no pense que vir logo. No estamos em Chicago.
Ela fitou-o, espantada.
	Placas de licenciamento  ele explicou.  Etiqueta adesiva de um estacionamento, no lado esquerdo do pra-brisa.
	No d para duvidar que  mesmo um policial.
	Fui  ele a corrigiu.
Sem pegar a filha, Abby procurou qualquer coisa na bolsa quase to grande como ela. Afinal, triunfante, tirou de dentro um pedao amassado de papel e estendeu-lhe.
Shane ajeitou Belle na curva do brao e pegou a folha escrita. Espantou-se e piscou. Tornou a ler. Seu prprio endereo estava ali grafado com uma letra feminina e firme.
	Deve haver algum engano  ele disse, aps alguns momentos.
	Por qu?
	"Esta" casa  a de nmero vinte e dois da Harbor Way.
Ela pareceu desconcertada.
	Devo ter escrito alguma coisa errada.
	Na certa.
Abby deixou-se cair em uma cadeira, tirou o bon e passou a mo nos cabelos lisos e espetados, de maneira graciosa.
	E agora? Tenho de ir.  bvio.
Quanto a isso, tudo certo. Seus cabelos estavam embaraados e midos, o rosto plido mostrava fadiga. Ainda assim, tudo o que Shane podia pensar era que Abby era muito sexy. Usava jeans folgado, o que acentuava o fato de ser esbelta como um salgueiro. Ela no deveria ficar ali. Era evidente.
	Escute, estamos no meio da noite e, se quiser, a senhora pode ficar aqui  ele ouviu-se dizer.  Na verdade, a casa foi construda com duas unidades independentes. Costumava ser alugada para as frias de vero e est mobiliada. H roupa de cama e mesa nos armrios. Eu nem mesmo cheguei a usar os quartos aqui de baixo. Eles tm sada para o hall e...
	O senhor  um completo estranho para mim!
	Admito isso, mas sou confivel.
Abby ensaiou um sorriso cansado.
	Tambm h uma chave na porta, embora eu no tenha por hbito atacar pessoas.
Shane poderia jurar que atingira o alvo. Pela chave. No pelo que dissera. Trancar a porta e o fato de Abby estar cansada alm da conta e provavelmente  beira de um colapso.
	Obrigada  ela disse com suavidade.
	No por isso. De manh, eu a ajudarei a consertar seu carro e a encontrar sua casa.
	Shane?
Ele preferia que ela no o chamasse pelo nome. No queria ser seu amigo e nem seu salvador. Mas no tinha outra escolha.
	Sim?
	Sinto muito por tep-lhe acertado a canela com tanta fora.
Trancada dentro do quarto, Abby escutou Shane subir a escada e perguntou-se se perdera o juzo. No somente atravessara o pas com a filha e todos os seus pertences, como naquele momento encontrava-se sob o mesmo teto com um homem do qual no conhecia o menor detalhe.
Bem, no era assim exatamente.
Sabia que ele fora um policial.
E tambm nunca vira olhos como aqueles. No somente pela cor de chocolate, muito atraente. Mas pela maneira de olhar. Intensa, forte e resoluta. Capaz de decifrar a alma.
Aqueles olhos impediram que ela fosse inteiramente tomada pelo pnico, no momento em que Shane surgira por trs e a flagrara na tentativa de abrir a porta da casa "dele".
Enquanto uma parte de si mesma horrorizara-se em ver um homem seminu sair de detrs da moita de rododendro s trs da manh, seu corao disparava no por medo, mas sim pela percepo de um olhar insinuante.
Era evidente que no cederia mais a uma fraqueza desse gnero. J se resignara ao fato de no ser uma boa conhecedora do carter masculino. O pai de Belle era um exemplo. Entretanto, mesmo sem querer impressionar-se com o homem admirvel que a surpreendera na pequena varanda, no podia negar que ele lhe causara arrepios.
Incrvel como, em meio a uma situao aflitiva daquele porte, pudera registrar cada pormenor. A altura e a largura dos ombros, a pele lisa e sem manchas, o fsico musculoso que nem o nevoeiro intenso conseguia esconder.
Pela tenso engrenada para agir, o ento desconhecido lhe parecera ainda mais atraente em sua rigidez masculina. Msculos peitorais bem definidos e salientes, abdome comprimido e reto, tendes e msculos ondulados nos braos e pernas.
Abby achou que no deveria ter-se surpreendido com a declarao de que ele era um policial. Afinal, o corte dos cabelos castanhos, curto e conservador, j fazia prever o fato. E tambm a expresso autoritria. O ar de presteza nos lbios sedutores e no olhar ligeiramente semicerrado. Tratava-se de um homem preparado para uma batalha.
Era provvel que esse conjunto a tivesse convencido a dar-lhe uma chance e a confiar nele. Os instintos lhe diziam que, de todos os lugares, bastante limitados na verdade, em que poderia ficar durante a noite, aquele mostrava-se o mais seguro.
Por certo, sua me adotiva ficaria horrorizada. A pobre Judy desejava tanto uma vida simples e organizada. Trabalhara duro para dar a Abby um lar decente, mesmo depois que a filha se tornara me solteira.
Judy considerara uma insanidade ir ao escritrio de um advogado desconhecido e aceitar uma doao. O que a bondosa senhora pensaria do ltimo acontecimento?
Abby admitiu que a situao daquela noite tinha sido deses-peradora. O que mais poderia fazer? Dormir no carro? Se fosse s ela, at seria vivel. Mas com Belle? A noite estava fria e mida. At mesmo Judy entenderia por que escolhera aceitar o convite do policial. Ou no?
Abby andou s cegas pelo apartamento mobiliado. No primeiro quarto, deitou a filha adormecida no centro da cama de casal. Foi at a janela e abriu a cortina.
Miracle Harbor parecia diferente da cidade que conhecera h um ms. A primeira impresso fora a de um carto postal. Uma linda cidade, com casas antigas, graciosas, contornando as colinas, ruas estreitas que terminavam na praia. A avenida principal tinha lojas de tijolos aparentes e toldos coloridos, grandes vitrinas de frente para o oceano.
Naquela noite, com o intenso nevoeiro, parecia mais um cenrio de um filme de terror.
Como pudera escrever de modo incorreto o endereo da casa que havia herdado?
E como uma cidade, que lhe parecera to acolhedora e alegre  luz do dia, podia mudar radicalmente  noite?
E tambm por que seu carro traioeiro lhe pregara uma pea justamente quela hora? No podia negar que era um automvel velho e que exigira muito dele. Afinal, ela o fizera atravessar o pas, arrastando todos os seus bens materiais. Talvez fosse um milagre terem chegado ao destino, sem que uma pane interrompesse o trajeto.
Milagres...
Abby saiu da janela. Concentrou-se em inspecionar embaixo da cama e os cantos, em busca de aranhas ou teias. Nada encontrando, deitou-se ao lado da filha, cansada demais para procurar os lenis.
E no seria por um milagre que tinha vindo parar ali?
Gostaria de acreditar que o mundo ainda lhe reservaria uma ou duas ocorrncias extraordinrias.
Refletiu nas condies de sua herana que lhe permitiria dar  sua filha tudo o que imaginara poder conceder-lhe. Um lar e um lugar seguro para crescer.
Isso, esquecendo os pervertidos que saam de detrs das moitas de rododendros.
Abby sorriu, apesar do cansao.
No poderia,  claro, esquecer-se das condies. Primeira: Morar em Miracle Harbor por no mnimo um ano. Nenhum problema. Mas e a segunda?
Absurda! Como poderia algum casar-se visando proveito pessoal? Que tipo de casamento resultaria de uma situao como essa? E, pelo envolvimento com Ty, o pai de Belle, Abby sabia que no podia confiar em si mesma como uma boa avaliadora de caracteres masculinos.
Sendo assim, por que viera, abandonando sua vida e sabendo que no tinha inteno de cumprir a segunda condio?
Durante o breve encontro com suas irms, ficara sabendo que elas haviam sido separadas quando estavam com trs anos. No se lembrava delas, mas Corrine afirmou que tinha uma vaga ideia do que acontecera. Os pais de Brit tambm lhe disseram que a adotaram quando estava com trs anos.
Abby viera porque estava disposta a conhecer melhor suas irms. Ao encontr-las, tivera a sensao de haver encontrado a si mesma.
Talvez, no recndito da alma, ela ainda acreditasse em contos de fadas. E em um lugar como Miracle Harbor, poderia acontecer uma histria com final feliz.
Quem sabe se o endereo incorreto e o carro enguiado no faziam parte do comeo de um projeto maior?
Para ela.
E Shane McCall? Como encaix-lo nesse esquema?
No sabia.
Ele se portara de maneira decente, mas s por que se tratava de uma atitude intrnseca  sua natureza. No por Abby Blakely. A partir do dia seguinte, ele s entraria na histria, quando se encontrassem casualmente na rua.
Havia barreiras altas e glidas no olhar do ex-policial. E Abby no se sentia disposta a penetrar naquele mistrio.
Mesmo se decidisse tentar preencher a condio ridcula atrelada  sua herana, jamais escolheria um homem como aquele. Idealizava uma pessoa doce, bondosa e qu fosse um bom pai para sua filha.
Um camarada rechonchudo, de culos, que levasse o almoo para o escritrio em uma sacola de papel.
Ouviu o ranger de um colcho de molas vindo do andar de cima e sentiu uma estranha agitao tomar conta de si.
O que era muito inconveniente. Aquele tipo de alvoroo s trazia problemas.

CAPTULO II

Os raios de luz que penetravam pela fresta da cortina acabou por acord-la. Abby espreguiou-se e relanceou um olhar pelo quarto. Mesmo na claridade, no distinguiu nenhuma teia de aranha.
A moblia era despretensiosa, bem de acordo com o que Shane dissera sobre aquela ser uma casa alugada para veraneio e o quarto, agradvel. Forro alto de estuque, piso de tbuas, esquadrias de carvalho nas janelas.
Seria a casa que lhe fora destinada to bonita quanto essa?
Estremeceu ao pensar na noite anterior e em Shane McCall.
	Abby  ela falou em voz alta.  Agora voc est descansada e imune quele homem. Nunca se esquea da verdade sobre um outro rosto bonito, minha querida.
Esticou o brao com inteno de puxar a filha para perto de si, passou a mo no colcho e o vazio a fez sentar-se, transtornada. Apenas um ligeiro afundamento denunciava o lugar onde a filha estivera deitada durante a noite.
	Belle  ela chamou, pulando da cama , onde est voc?
Abby abotoou rapidamente a blusa feita por ela mesma e tentou
evitar o pnico, mesmo no sendo aquele o apartamento modesto  prova de fugas de crianas de Chicago.
	Belle?
Abby correu at o quarto contguo. Uma cadeira, certamente para servir de escada para alcanar o trinco, estava encostada na porta aberta. Por ali, viu o corredor, a porta da rua e a cozinha. Lembrou-se da fechadura de segurana onde tentara encaixar a chave na noite anterior. Nem mesmo uma criana precoce como Belle a abriria com facilidade.
Porm, ao adiantar-se no hall, estacou, horrorizada. A porta da frente no estava trancada e nem mesmo fechada. Uma brisa com cheiro de mar penetrava atravs da tela.
	Belle!
	Aqui.  A voz no era da filha. Era "dele" e soava carregada de irritao.
Abby entrou na cozinha e hesitou.
"Imune", ela repetiu para si mesma.
Mas o fato da filha estar ali, s e salva, e no perambulando pelas ruas de Miracle Harbor ou aproximando-se do oceano, novamente deixou Abby mais vulnervel.
O cansao e a aflio da noite anterior deixaram-na mais sensvel. Afobada, sentiu calor, como se levasse uma inscrio na testa: "Precisa-se de um marido, urgente".
Pelo jeito, Shane no apreciava excesso de roupas. Naquela manh, ele usava um short azul-marinho de corrida que deixava  mostra pernas musculosas e fazia pressupor ndegas firmes. A camiseta cinza com emblema da polcia no escondia a largura do peito e nem os bceps de atleta.
Seria possvel uma mulher ver tudo aquilo e no imaginar ser abraada por ele? S se no fosse humana!
Shane trazia uma toalha branca em volta do pescoo e os cabelos estavam molhados.
Era um homem bonito, que na certa chamava ateno. Mas do rosto altas, nariz reto e forte, queixo ligeiramente pronunciado. Ele ainda no se barbeara, o que lhe dava um certo ar travesso e indomvel.
Abby conhecia muito bem esse tipo de homens. Conseguiam tudo o que desejavam e depois deixavam as vtimas para trs, com um rastro de dor e sofrimento.
Somente uma coisa impediu-a de odi-lo totalmente. O olhar apavorado com que ele fitava Belle.
	O que esta criana come? No temos muitas opes por aqui  Shane declarou, como um militar em uma misso na qual estava prestes a falhar.
Belle estava sentada em cima de uma pilha de livros arrumados sobre uma cadeira, junto  mesa da cozinha, rodeada de caixas de cereais e tigelas.
	Quer dizer que a deixou experimentar tudo isso?  Abby perguntou, horrorizada.
Belle abocanhou uma colherada generosa, do que parecia ser um punhado de uvas-passas cobertas com chocolate e embebidas no leite, da cumbuca  sua frente. Engoliu, franziu a testa e apontou a prxima escolha.
Ao que ele, homem de grandes atrativos fsicos e personalidade glamourosa, tratou de obedecer.
	O que est fazendo?  Abby perguntou, cruzando os braos na altura do peito para proteger-se. Do qu?
Certamente do desejo de rir. Por ver um ex-policial de noventa quilos e olhar ameaador sendo comandado por uma criana.
	Dando de comer a uma menina,  bvio.
	E por qu?
	Quando cheguei da corrida matinal, ela estava escapando da sute. Tentei faz-la voltar, sem sucesso. Belle proclamou que estava com fome e certamente esperava que eu fizesse algo a respeito.
	Com essas palavras?  Abby no resistiu  provocao.
	Ela no precisa de palavras! Basta contorcer o rosto e mostrar as amgdalas! Quando eu lhe disse para voltar para o quarto da mame, ela gritou comigo. Alto.
	Belle!
	Belle no  m  a menina antecipou-se ao que viria.  Belle  m?  perguntou a Shane e piscou com timidez afetada. 
	!  ele disse, mas reconsiderou, quando Belle tornou a piscar.  Bem, talvez no muito. Apenas teimosa, decidida, veemente e exagerada.
	Ela no  exagerada  Abby no concordou com a ltima assertiva.  Est apenas se aproveitando da ocasio.
	Com dois anos de idade?  Shane parou de despejar outra  amostra em uma tigela vazia, endireitou o fsico de mais um metro e oitenta e fitou Abby com desdm.  No acredito.
	Na verdade, o senhor no deveria ter-se preocupado com isso. Poderia ter-me acordado.
	Pensei nisso  ele admitiu, hesitou e finalmente decidiu-se por adicionar uma pitada de acar mascavo.
	E...  Abby observou-o refletir e depois adoar mais um pouco o cereal.
	A senhora parecia muito cansada ontem  noite. Achei que talvez precisasse de mais sono. Alm do que, eu lhe prometi um quarto inviolvel. No iria gostar de ser acordada por um homem.
Aquela ideia deixou-a com a boca seca. Por que ele tinha de ser to atraente? O que a lembrou a prpria aparncia. Passou a mo nos cabelos. Sentiu que havia fios eriados que costumava domar com um tubo de gel e uma boa dose de pacincia. Analisou as roupas amassadas com as quais dormira e a blusa abotoada de modo incorreto.
Shane, por sua vez, parecia pronto para uma sesso de fotos, apesar do rosto no barbeado e das manchas de suor na camiseta.
	Uma canela roxa j  o suficiente  ele declarou, com olhar sombrio.
Abby mirou o lugar que golpeara na noite passada. Uma mancha roxa brilhava no meio da perna de Shane. Por algum motivo, duvidou que tivesse vontade de dar-lhe um pontap, se visse Shane McCall naquela manh.
Assim mesmo, tentou aparentar a maior imparcialidade possvel, Afinal, pretendia deixar bem claro que no se abalaria por sua presena, por mais" atraente que ele pudesse ser.
	Espero que no o tenha machucado muito.
	Pode apostar que o fez  ele suspirou , mesmo conside rando-se a rigidez de um velho guerreiro.
	Mame beija e sara  Belle sugeriu, sbia.
	Para mim est timo. O que mame tem a dizer quanto a isso?  Shane, conhecedor dos limites, fez a pergunta de modo casual, sem nenhuma emoo, nem mesmo com ar de provocao amigvel.
	Os beijos de mame...  Abby procurou manter o mesmo tom  so reservados para Belle. Somente.
	O que me faz ter muita pena do pai de Belle.
	O senhor nunca conhecer um homem menos merecedor de sua piedade. Abby arrependeu-se imediatamente do que acabava de dizer. No pretendia revelar nada sobre si mesma.  Belle e eu somos sozinhas.
Uma afirmao daquelas, depois da palavra "beijo", perante um homem semivestido, remetia a uma situao no mnimo bizarra.
"Procura-se um marido."
Brittany, depois de ter ouvido as condies impostas, decidira pr um anncio no jornal com o mesmo propsito. E rira a valer, quando Jordan Hamilton a ameaara com uma expresso desaprovativa.
Mas Abby no era Brittany. Apesar de parecerem idnticas.
	Acredito que ns j atrapalhamos demais  ela declarou, reservada.  Agora  melhor seguirmos nosso caminho.
"Antes de que eu me comporte como uma idiota, o que no seria a primeira vez."
Na verdade, ela no s cedera a Ty, como se atirara sobre ele, arrebatada por sua boa aparncia e seu charme natural, achando que esses atributos eram significativos. Antes de Ty, nenhum homem a perturbara tanto e suas atenes tinham sido cativantes.
Conseguido o que desejava, Ty mudara radicalmente. Mesmo assim, grvida e com medo de ficar sozinha, Abby ficara com ele tempo demais para qualquer mulher com um mnimo de amor-prprio. Ele havia jurado, quase at o fim, que a amava perdidamente, mas jamais lhe propusera casamento.
	Vou dar uma espiada no seu carro  Shane interrompeu-lhe os pensamentos.
Qualquer um podia ser sedutor, ela disse a si mesma. Qualquer um podia dar a impresso do que no era.
	No  Abby respondeu, observando a ateno dele para com Belle em relao  oferta dos diferentes cereais.  No  preciso.
Brit no aprovaria a recusa. Afinal, no lhe mandara o livro ridculo "Como encontrar o companheiro ideal"? Abby, mesmo sem pretender ler uma i linha, acabara devorando as pginas com uma espcie de fascinao horrorizada.
Teria Brit enviado um exemplar para Corrine, que parecia to inbil quanto Abby em relao ao sexo oposto? Ou talvez Corrine fosse mais arredia. Circunspecta?
Ou melhor, amedrontada, Abby refletiu. Somente uma irm, mesmo sem nunca a ter conhecido, poderia desvendar o que se escondia atrs das defesas do olhar de Corrine. E quem poderia culp-la? Elas haviam sido levadas a deixar para trs tudo o que conheciam e a comear de novo. Sozinhas.
Abby continuava chocada com as atitudes de Brit, semelhante s irms apenas fisicamente.
Confiante e expansiva a ponto de parecer sempre em estado de ebulio. Brit agia, falava e se movia, como se fosse uma mulher estonteante.
Sem negar o fato, Abby no conseguia olhar-se no espelho e achar o mesmo. Talvez devesse deixar os cabelos crescerem e us-los elegantemente despenteados? Ou um pouco mais de elegncia e maquilagem. Mas para qu?
Para atrair o homem perfeito?, Abby perguntou-se, com desdm.
Apostava que a irm mandara para Corrine uma cpia daquele livro horrvel que trazia um captulo inteiro dedicado s tcnicas de vesturio destinadas a prender os homens em armadilhas.
E nenhuma linha a respeito de como domar cabelos finos e rebeldes, e uma aparncia matinal que lembrava a noite anterior. Que utilidade tinha um livro que no ensinava a resolver situaes de emergncia?
A menos que ela ainda no houvesse chegado a esse captulo.
"Abby, voc odeia aquele livro e tudo a que ele se refere!"
O importante no era atrair o homem  sua frente, mesmo em se tratando do mais perfeito espcime masculino que j vira, mas sim afastar-se dele o mais depressa possvel e esquec-lo.
Poderia permitir-se chamar um mecnico, Abby admoestou-se. Sua poupana reduzida em breve seria suplementada, porque recebera de presente uma casa igual quela, com duas sutes.
Com um adendo. Na superior morava um inquilino confivel que estava no local h quase um ano e no pensava em mudar-se, de acordo com as informaes obtidas atravs da administradora.
O aluguel e mais o que poderia ganhar com um pouco de costura, permitiria que ela e Belle vivessem com muito mais conforto a que estavam habituadas.
Ricas o suficiente para poder chamar um mecnico.
	Chamarei uma oficina. J o incomodamos demais.
	Agora aquela  Belle exultou, depois de ter rejeitado o contedo da vasilha  sua frente.
	Para ser honesto  ele arriscou um murmrio , acho que  prefervel cuidar do carro do que dela.
	No se preocupe com nenhuma das duas coisas. Eu a levarei  para tomar o breakfast em qualquer lugar. No queremos perturb-lo mais...
	No!  Belle gritou.  "Mim gosta aqui".
	Vamos ver, sua espertinha. No ouse recusar estes flocos de milho. Voc os adora!
	No quero!  Belle declarou, rebelde.
Enquanto Abby tentava fazer o impossvel, chamar  razo algum que ainda no desenvolvera o raciocnio, Shane apanhou as chaves que ela deixara sobre a mesa na noite anterior e saiu assobiando.
Um homem irritante que assumia o controle da situao, Abby aborreceu-se e seu corao feminista ficou consternado. Mas o ser humano admitiu adorar que cuidassem dela.
Ao chegar  rua, Shane sentiu como se houvesse sido atingido por um saco cheio de pedras.
Primeiro, fora dominado por uma menininha que agitava o dedo rseo com desenvoltura. Depois a me terminara a tarefa.
Como uma mulher podia ter aquela aparncia atraente logo pela manh?
Os cabelos revoltos, a blusa torta, o jeans amassado e to largo que dava a impresso de que iria cair a qualquer momento.
Assim mesmo, ela parecia uma rainha de concurso de beleza.
Com um estalar de dedos, ela poderia t-lo levado a servir-lhe quantos cereais tivesse vontade de comer.
Reconheceu aquele sentimento que no apreciava e nem pensava em tolerar.
Shane McCall no seria vulnervel. No era por isso que estava ali? Em uma cidade pequena onde no conhecia viva alma e assim pretendia continuar?
Para ser mais exato, no queria nem ter noo de almas infantis.
Conhecia Morgan hlinos, desde que haviam trabalhado juntos em um caso de contrabando de drogas em Portland. Morgan se mudara para Miracle Harbor, sua cidade natal, casara-se e constitura famlia. Morgan o convidara para jantar. Conhecer a esposa e os filhos.
Quanto  esposa, tudo bem. Mas as crianas?
Ele no queria ficar perto de meninos pequenos.
Garotos falavam sobre basquete e futebol. Meninas... bem, no tinha a menor ideia.
Drew Duarte, velho companheiro da Diviso de Entorpecentes, preocupava-se com ele. Afastara-o de uma vida de desespero e solido, e conseguira interess-lo em um programa de treinamentos. Assim, Shane realizara alguns cursos de especializao durante aquele ano, e ainda aproveitara o tempo livre para correr e fazer levantamento de peso. No estava disposto a permitir que nenhum garoto de dez anos, como o filho de Morgan o derrubasse.
Naquela altura, Drew o levara a dar um passo  frente. Estava elaborando um captulo sobre processos de investigao de drogas para um manual de treino de uma repartio federal.
Uma vida onde a maior emoo era o verificador ortogrfico do computador talvez fosse montona demais, at mesmo para ele.
Ser que desejava algo mais? Nem que fosse por um momento?
No!
Mudar-se para um lugar como Miracle Harbor poderia representar problemas, Shane cismou. Mas aquilo no era um pensamento racional!
Devia ser o ponto de vista de um homem que vira interrompida sua vida calma e ordenada.
Viera para Miracle Harbor, pois tinha de sair de onde estava. Deixar tudo para trs. Morgan mandara um carto de psames, quando ficara sabendo do ocorrido. Junto, viera uma nota dizendo que possua um chal na praia, caso Shane desejasse um lugar tranquilo para descansar.
Concordara em ficar uma semana e estava ali at aquele momento.
Deixara a cabana, cheia de correntes de ar, de Morgan aps o inverno e alugara as duas sutes da casa antiga em estilo colonial holands localizada a uma quadra do centro e do oceano. Era muito grande para um homem solteiro, mas Shane no queria ningum morando com ele. Alugar casas em Miracle Harbor era tarefa difcil. A situao tornara-se ainda pior com o projeto do resort em andamento nas cercanias da cidade. A casa era velha e precisava de reparos constantes. A fornalha era melindrosa. As luzes piscavam e ele parecia antecipar cada catstrofe com o prazer de uma pessoa que no tinha nada mais com que se preocupar na vida. A casa lhe servia perfeitamente.
Assim, teria de resolver o pequeno problema que viera interferir em sua vida metdica com a mesma determinao calma com a qual solucionava os percalos surgidos com a velha construo. Em algum tempo, ficaria livre das duas intrusas. Da grande e da pequena. Na verdade, estava matando dois coelhos com uma s cajadada. Faria o trabalho de escoteiro, uma tarefa esquecida desde que se afastara da ativa, e elas iriam embora.
 Ganhar ou ganhar  murmurou, para si mesmo.
Shane abriu a porta do carro de Abby, para puxar a trava do capo. Havia um livro aparecendo do bolso externo de uma sacola de viagem no banco da frente. Ao ler- o ttulo, sentiu o suor brotar na sua fronte.
"Como encontrar o companheiro ideal".
E no era o que ela estava tentando fazer, desde o primeiro momento em que o encarara com aqueles olhos azuis e grandes?
Aquela mulher estava  procura de um homem.
Por Deus, no haveria de ser Shane McCall!
O que o incentivou a consertar o carro o mais rapidamente possvel.
Assobiando e limpando a graxa das mos, Shane voltou para dentro de casa.
Abby estava ao telefone. A menina, no cho, brincava com as vasilhas de plstico. Fora isso, a cozinha estava imaculada. No havia caixas de cereais  vista e as tigelas lavadas tinham sido guardadas. Belle veio direto para ele, sorrindo de orelha a orelha.
Por que era to fcil fazer amizade com uma criana pequena?
"Cuidado com sentimentos calorosos, Shane MpCall", ele se advertiu.
Passou longe de Belle, que o seguiu, sem se incomodar com a desfeita.
J estava na terceira volta ao redor da mesa, quando Abby desligou e fitou-o, preocupada.
	O escritrio de advocacia no parece abrir aos sbados. Tentei achar Jordan Hamilton, nosso advogado, em casa, mas no houve resposta.
	Um dos filhos trabalha com ele. Mitch...  Mitch Hamilton era amigo de Morgan.  Tentarei localiz-lo.
Shane procurou o nmero na agenda e no encontrou. Ligou para Morgan.
A pequena Belle estava agarrada em seu joelho e ele sacudiu um pouco a perna. Ela segurou-se com mais fora. Do outro lado da linha, na casa de Morgan, ouviu uma criana rindo.
	Eu trouxe um cachorro para as crianas  o amigo contou-lhe, depois de Shane hav-lo cumprimentado e ter pedido o nmero de Mitch.
	Pelo barulho, o presente deve ter sido um sucesso.
	Foi uma estupidez  Morgan confidenciou, em voz baixa.
 Faz seis dias que no fao outra coisa a no ser limpar sujeira de cachorro.
Shane escutou os risos da meninada e foi tomado por um sentimento estranho. De pesar por brincadeiras que no iria conhecer.
Tratou de afastar aquela ideia e os dedos rechonchudos de seu joelho.
A me viu a cena e aproximou-se para tirar Belle de perto.
Mitch Hamilton atendeu no segundo toque e escutou o problema. Felizmente, do outro lado da linha no havia vozes de crianas.
	Papai ausentou-se a negcios neste final de semana  Mitch explicou.  Eu mesmo irei at o escritrio.
Homem sensato, Shane pensou. Trabalhar no sbado. Em vez de ficar limpando sujeira de cachorro em uma casa cheia de risos at os caibros do telhado.
	Obrigado.
	Verificarei o endereo da casa em questo e ligarei de volta.
Como  mesmo o que ela disse? Harbor, vinte e dois? E qual das trigmeas ela ?
	Abby.
	Tem cabelos compridos?
Qual a importncia daquilo?
	No.
	timo.  Parecia aliviado?  Eu ligarei daqui a uma hora.
Quinze minutos teria sido melhor, mas Shane no estava em posio de queixar-se.
Os botes da blusa de Abby estavam corretamente fechados e os cabelos, penteados. Shane preferia-os desgrenhados
	Ele vai dar a resposta em uma hora. A senhorita j comeu?
	No.
Vacilante, Belle andava pela cozinha com os braos estendidos para a frente e ria sem motivo. Os risinhos suaves encheram a casa que, at ento, havia sido abenoada pelo silncio.
	Sirva-se  vontade  Shane ofereceu, secamente.  H uma montanha de cereais no armrio. E eu tenho muito o que fazer. Ficarei no escritrio at Mitch telefonar.
	Claro. Muito obrigada.
	Mais uma coisa.
	Sim?
"Eu no sou o companheiro ideal", era o que ele gostaria de dizer.
	A cafeteira est ali. Sinta-se em casa.  Shane sentiu um calafrio.
Ele subiu a escada e foi para o chuveiro. Quando saiu, o aroma do caf recendia at no andar superior. Adoraria tomar uma xcara da bebida quente, mas tinha de evitar muita amizade com o exrcito inimigo. Forou-se a sentar em frente ao computador e trabalhar. Durante a hora seguinte, escreveu apenas duas linhas, ambas sem o menor sentido.
O telefone tocou e ele atendeu, desesperado como um nufrago.
Mas a tbua de salvao apresentou-se de forma totalmente diversa.
Desligou, desceu a escada e foi at a porta da cozinha.
Abby estava sentada no cho e soprava bolhas de sabo, enquanto Belle batia palmas, entusiasmada.
- Era o advogado?  Abby perguntou, por sobre o ombro.
Shane anuiu, em estado de choque.
Abby levantou-se e limpou as mos no jeans.
	Ele encontrou a minha casa?
	Estas so as boas novas.
Shane aspirou o cheiro do caf, evitou-lhe o olhar e, de costas, apanhou uma caneca para servir-se.
	Isso quer dizer que temos ms notcias, no ?
Ele percebeu-lhe a ansiedade e tratou de adoar o caf. Por que aquela vontade de acalm-la? Quando se virou, era um homem com problemas a resolver.
A ideia de que ela iri^ embora, "muito prazer em conhec-la e boa sorte", fora deixada em frangalhos pelo advogado.
No havia engano. Mitch fizera uma dupla verificao.
Com o canto dos olhos, Shane viu-lhe o desalento da fisionomia. Tomou um gole de caf e pigarreou.
	Diga-me  ela pediu, corajosa, com as mos nos bolsos da cala.  Eu j deveria ter imaginado.  uma pocilga, no  mesmo? Impossvel de se viver nela.
	Essa no  exatamente a questo.
	O inquilino  pavoroso? Algum velho imundo? Est morando na "minha" casa com trs cabras e dezesseis gatos,  isso?
	No.
	Diga-me  Abby implorou.  Por favor.
	Srta. Blakely, parece que "esta"  a sua casa.

CAPTULO III

	Esta casa  minha?
Shane percebeu o novo tipo de interesse com que ela olhava ao redor. Talvez analisando a possibilidade de pregar alguns quadros, fazer uma pintura ou mesmo escolhendo o lugar para uma cadeira de balano.
	Sim, senhora.
Ele j vira a mesma expresso de "construir o ninho" em Stacey, quando haviam comprado uma casa velha e ela vira um castelo, em vez de uma catstrofe. Shane estava bem certo de que no suportaria passar por aquilo mais uma vez.
Afinal, no era casado com Abby e nem ela iria morrer. Esperava que a jovem aceitasse, com a graa de Deus, a noo de que houvera um terrvel engano e que a casa "dela" j estava habitada por um inquilino de confiana.
O que, de acordo com o advogado, no teria nenhum valor legal depois do trmino do contrato, em dois meses.
Shane fitou-a e no teve muitas esperanas.
	Mas  to linda... Veja s o piso.
	Precisa ser lixado e polido. Sua filha poder ficar com lascas de madeira nos ps. A fornalha no funciona muito bem. As portas e janelas no fecham direito. Correntes de ar no so muito saudveis para crianas.
Ele mesmo achou que estava agindo como um homem desesperado.
	O senhor no me parece exatamente um perito em crianas  ela declarou, sem preocupar-se com a situao do locatrio e  passando a mo carinhosamente sobre a esquadria e o peitoril manchado da janela.
	Eu posso dar um jeito nelas.
Em um momento de insanidade, Shane desejou dizer-lhe que, h muito tempo, quase se tornara um perito em bebs. Havia um trao de compreenso no olhar de Abby que o fez pensar que ela entenderia seu drama. Aquele pensamento renegado resvalou pelo muro do autocontrole cuidadosamente construdo. E isso o apavorou.
	Talvez o sistema eltrico tenha de ser trocado  ele insistiu. 	Isso sem mencionar a escada externa. Entre outras coisas.
	O senhor tem visto muitas aranhas?
	Aranhas?
	Sim.
	Acho que nunca vi nenhuma.
	Ah, bom. Ento tudo o mais no  problema  ela declarou, com tranquilidade e um gesto de pouco-caso.
timo! Era uma mulher que no dava importncia a problemas estruturais. Mas se lhe dissesse que a casa estava infestada de aracndeos, ela iria embora sem pestanejar. Porm Shane no era desonesto. Esperava ver-se livre dela sem recorrer a mentiras.
	A senhorita parece ter-se esquecido de um grande problema... 	ele avisou, severo e com esforo para manter o equilbrio.
	Vou empapelar o hall com um padro que tenha rosas-ch 	Abby interrompeu-o, sonhadora.  Tambm farei um tapete tecido  mo para a entrada. Cortina xadrez em vermelho para esta janela. O que acha?
	Estvamos discutindo um problema.  Shane achou horrvel a ideia do xadrez vermelho. A cozinha no era nenhuma cantina italiana.
	Desculpe, qual  o problema?
Ele cruzou os braos na altura do peito.
	Eu.
Como ex-policial, Shane sabia muito bem como impor sua presena, tornando-a mais imponente e intimidativa.
Mas Abby no pareceu incomodar-se nem um pouco. Continuou a olhar para as molduras das janelas e a alis-las.
	Carvalho verdadeiro.
	Quem, eu?
Abby levantou-se, pensativa, fitou-o e sorriu. O brilho de seu olhar poderia cegar.
	Quanto ao senhor, pareceu-me que  um inquilino excelente. Acho que podemos chegar a um bom termo.
Alguma coisa lhe dizia que a soluo de Abby Blakely passava simplesmente pelo aluguel mensal, como toda boa locadora.
	Verdade?
	Por que no podemos morar juntos?  ela perguntou.  Isso lhe pouparia o trabalho de procurar um novo lugar para viver e evitaria que eu tivesse de encontrar um novo locatrio.
	Ser que no poderia ser um pouco mais razovel?
	E no  o que estou tentando ser?
Shane teve de admitir que a sugesto dela era racional. Mas ficar sob o mesmo teto com ela e a filha, era completamente inaceitvel.
	Entenda...  Abby falou com voz suave e os olhos arrega lados.  Eu no tenho outro lugar para onde ir.
Ser que ela pretendia fingir-se de mulher em apuros outra vez?
	A noite passada  ele relembrou-a com frieza  a senhorita nem mesmo queria entrar. Agora pretende morar aqui?
	Depois que fiquei sabendo que a casa  minha.
	A lgica feminina sempre me surpreendeu.
Ele a conhecia h menos de um dia e sua vida j estava em de pernas para o ar. A rgida rotina, ameaada.
	O senhor tem algum lugar para onde ir?
Shane gostaria de poder dizer que tinha dezenas de lugares  sua espera. O que no corresponderia  verdade.
	No, mas posso comprar.
Ele no lhe diria qual a parte da equao que tornava isso impraticvel. Comprar uma casa envolvia um pequeno item chamado compromisso, uma palavra cuidadosa e totalmente erradicada do seu vocabulrio.
	Porm eu j investi uma boa quantia nesta aqui  ele continuou teimando.
	Eu sei que poderemos encontrar uma soluo.
Shane no queria solucionar nada. A nica alternativa possvel seria ela sair de sua casa e de sua cabea.
Mas o local pertencia a Abby e no a ele.
Ela apanhou a cafeteira e tornou a encher a caneca que ele esvaziara.
	O balco tambm precisa de um conserto  Abby comentou.
	A casa inteira precisa de um pouco de ateno, para ser mais exato. Dez carpinteiros trabalhando em tempo integral durante um ms, e com muito boa sorte se encontrar um disponvel nesta cidade pelos prximos dois anos, no fariam muitos progressos, tantas as reformas que tm de ser feitas.
	Eu poderia contrat-lo. Reduzir o aluguel, em troca de trabalho.
Abby serviu-se de caf e sentou-se  mesa, lanando ao redor um olhar cheio de planos. O balco, a porta do armrio.
A vida de Shane sendo planejada minuciosamente  sua revelia.
Poque o advogado no tomava conta do assunto? Ele devia ter experincia em tratar de problemas delicados que surgiam quando homens e mulheres resolviam compartilhar vidas. Se houvesse concordncia de ambas as partes,  claro.
Shane puxou uma cadeira e sentou-se em frente a Abby. Dali a instantes, sentiu uma pequena mo agarrar-se em seu joelho. Belle abandonara as vasilhas plsticas e o olhava, esperanosa.
	Colo?  a menina perguntou.
	No.
Belle parecia uma boneca. Usava um vestido curto vermelho e a me prendera os cachos dourados em um pequeno rabo-de-cavalo no alto da cabea. E como agravante, tinha uma qualidade inerente s mulheres...
	Por favor?	.
... qual no se podia resistir. De jeito nenhum. Shane fitou a menina, depois Abby de relance e cedeu. Como dizer "no" a uma criana? Ele se curvou e ergueu a menina sobre os joelhos. Belle suspirou feliz, sem incomodar-se com o mau humor aparente do adulto, encostou a cabea no peito largo e ps o polegar na boca.
Shane, movido pelo esprito de policial, considerou a tarefa finda e concentrou-se no mais importante.
	Bem, como  que a senhorita tornou-se dona desta casa?
Abby contou que era rf e h pouco tempo ficara sabendo que era uma das trigmeas. Ela e as irms receberam, de um annimo, um dote cada uma. O estranho as reuniu em Miracle Harbor e aquela casa lhe coubera.
Apesar da resposta esclarecedora, Shane sentiu-se confuso. Por hbito profissional, no gostou de saber que um desconhecido deixara uma casa para ela.
Por outro lado, conhecer a histria o fez pensar nela no como um problema irritante, mas sim como um ser de carne e osso, com alma e sentimentos. No mais um inimigo. Se no tomasse cuidado, essa nova situao poderia voltar-se contra ele. E a menina pequena sentada em seu colo fazia parte da trama.
Shane tentou endurecer o corao. A vida trgica de Abby Blakely no era de sua conta.
	Como  que as irms foram separadas?
Abby deu de ombros, mas no escondeu uma ponta de sofrimento no olhar.
	Brittany disse que foi adotada quando estava com trs anos. Corrine afirma que os pais morreram em um acidente de carro. Ento posso deduzir que eu estava com trs anos quando eles morreram e que fomos separadas por um motivo que ignoro. Mesmo assim, minha vida  um quebra-cabea onde faltam vrias peas. A medida que eu puder conhecer melhor minhas irms, acho que muitos fatos podero ser esclarecidos. Talvez quem me deu esta casa saiba de alguma coisa.
Abby hesitou um pouco, com um tremor na voz.
	A nica maneira de descobrir isso  eu ficar aqui.
	As sutes desta casa nem mesmo tm cozinhas separadas!  Shane tentou ser prtico, apesar da emoo.
Uma manobra intil. Abby era uma pessoa que tentava fazer o melhor possvel com as cartas que tinha em mos. Apesar do que acabara de ouvir, Shane no sentiu autopiedade em Abby e sim muita coragem. O que talvez no fosse conveniente para ele.
	Eu tenho um contrato  Shane acrescentou.
	Por quanto tempo ainda?
	No muito, infelizmente.
Shane forou-se a reconhecer que, para ele, a casa no passava de um lugar para morar. Abby, por sua vez, j comeava a sonhar com um futuro.
Belle ps o dedo no nariz dele, talvez para lembr-lo que os problemas de Abby eram mais urgentes e Shane sentiu sua postura rgida evaporar-se.
Haveria de encontrar outra moradia, ele ponderou. Sob todos os aspectos, seria uma insensatez ficar sob o mesmo teto com Abby.
	A senhorita no poderia morar com suas irms?  Shane fez uma ltima tentativa angustiada.
Afastou  dedo de Belle, fitou-a com seriedade e suspirou. Claro que Abby no aceitaria a sugesto.
	Por favor, escute  ela enfatizou.  Eu "preciso" permanecer  aqui. Talvez pelo significado de que algum, mesmo sendo um estranho, importou-se comigo o suficiente para deixar-me a casa   como herana. Nunca tive nada que fosse meu de verdade. Ela  a primeira coisa que me pertence. Fora Belle,  claro. Ser que d para entender?
	No muito bem.
As palavras dela mostravam a diferena entre as percepes feminina e masculina. Ou talvez fosse o seu ponto de vista de policial que via algo suspeito em uma oferta daquele tipo por parte de um desconhecido. Mas para Abby era como se o universo se iluminasse  sua frente.
	Eu irei embora, assim que achar um canto para viver.
	No h necessidade de fazer isso.
	H sim, e muita.
Shane achou agradvel estar com Belle no colo e refletiu onde Abby iria encontrar um inquilino to bom quanto ele.
Mas isso tambm no era de sua conta, ele se repreendeu.
Belle balanou o corpo gorducho e cantarolou uma melodia com apenas quatro palavras: "no-vai-embora-hoje".
	No precisa sair daqui  Abby insistiu.  O senhor disse que nem mesmo usou  a sute de baixo. Dois quartos so mais que suficientes para mim e para Belle. E podemos muito bem partilhar a cozinha.
	Para mim no d.
	O senhor me faz sentir culpada.
Aquilo o fez ficar com remorso. A vida ficava muito complicada, quando envolvia uma mulher. Se se empenhasse, em uma semana encontraria outro lugar para morar.
E se ela alugasse o andar de cima para um velho com trs cabras e dezesseis gatos?
Azar o dela.
Mesmo que tivesse de dividir a cozinha com o ancio.
	Eu trarei suas coisas para dentro. A senhorita pode muito bem ficar aqui por enquanto. At eu ir embora, poderemos fazer uso comum da cozinha.
Ele  que estava sendo despejado e ainda por cima sentia remorso!
 o que Abby Blakely acabava de fazer. Uma revoluo em sua vida. Sem ele nem ao menos perceber como acontecera.
O melhor seria fugir dali o quanto antes.
	Belle  Abby sussurrou no ouvido da filha, enquanto danava pela cozinha vazia, com a menina nos braos.  Esta  a nossa casa! Nossa! Sua e minha!
	E o "moo"?  Belle perguntou, sorrindo pela felicidade da me e tocando-lhe a face.
	Aquele? Eu sei l!  A verdade a fez sentir remorso. E por qu? O teimoso era Shane!
	"Mim" gosta dele  Belle anunciou.
	S por que ele lhe deu tudo aquilo no caf da manh? Minha filha, voc no deve deixar-se comprar com tanta facilidade. Aprenda essa lio de vida.
Belle sorriu, sem entender nada.
Abby sentou-a no cho e fez uma inspeo no recinto. Quando pudesse, instalaria balces, gabinetes e piso novos.
De imediato, cortinas e uma demo de tinta j imprimiriam a personalidade da dona. Alm do que, fazer cortinas era uma de suas especialidades. Talvez fosse melhor no se apegar demais  casa. Se no se casasse em um ano, acabaria por perd-la.
Bem, mas no queria pensar no fato. No momento, s pensaria nas bnos. Nem precisaria preocupar-se com o carro velho. Ela o deixaria parado. O centro da cidade era prximo. E a praia tambm.
	Abby!  Shane chamou-a de fora, aborrecido.
Pela limpeza meticulosa e pela preciso com que os utenslios estavam arrumados nos armrios da cozinha, Abby conclura que ele era um homem que gostava, ou melhor, amava a ordem. E que a desorganizao inesperada no o agradava nem um pouco, embora ele procurasse disfarar o fato.
Talvez quando aquele mal-humorado visse como ela e Belle eram tranquilas, poderia at pensar em no se mudar. No lhe agradava procurar um inquilino em uma cidade cheia de trabalhadores temporrios.
	Abby!
Mas no podia afirmar se conseguiria morar junto com ele. Bem, talvez devesse deixar que o tempo se encarregasse de mostrar-lhe isso.
Com Belle no colo, Abby saiu da cozinha.
Shane estava em p na entrada. De short. A camiseta jazia sobre um rododentro do jardim. Ele carregava uma caixa pesada e os msculos dos braos mostravam-se ainda mais salientes. Abby arregalou os olhos e reparou no fio de suor que escorria por trs da orelha e perdia-se no pescoo.
	Onde  que eu deixo isto?
Abby sabia que, por vontade dele, seria de volta ao trailer e fora de sua vida.
	Embaixo da janela ficar timo.
	O que tem a dentro? Tijolos?
	Minha mquina de costura.
Nisso, a ala soltou-se da caixa. Shane conseguiu evitar que a embalagem atingisse o cho, e no seu p.
Abby teve certeza que nunca ouvira as trs palavras ditas por ele. Deixou Belle no cho e recomendou-lhe que fosse brincar com as vasilhas de plstico.
	Francamente! No quero que minha filha aprenda esse tipo de linguajar.
Emburrado e pesaroso, ele a encarou.
	 bom que a senhorita no tenha essas ideias.
	Quais?
	No tente educar-me.
	Eu? Educ-lo?
	Eu no sou um companheiro ideal. Mas no se preocupe, vou sair daqui logo.
Abby fitou-o, intrigada. Onde ele teria visto aquela frase? Teria o advogado revelado ao telefone as condies para se ter direito  herana? Que ela e as irms teriam de encontrar um marido?
	Acredito que no h perigo do senhor ser confundido com um homem perfeito.
Shane mostrou-se insultado.
	Ou talvez  ela apressou-se em acrescentar , a minha experincia me diga que ele no existe.
Shane riu com desdm.
	Esta tarde mesmo vou comear a procurar outro imvel.
	Fique  vontade.
	Obrigado  ele murmurou.
	Eu tenho de confessar que me sentiria mais segura  noite, se o senhor ficasse  Abby declarou e imediatamente reconheceu o erro de suas palavras.
O calor nos olhos dele sugeriu que ela no se sentiria muito segura sob o mesmo teto com Shane McCall...
	Mas eu lhe desejo boa sorte. Tomara que encontre logo  ela disse, com alegria forada.  Sabe de uma coisa? Adorei esta casa. Veja que luminosidade. Poderei ter minhas plantas ali e ainda terei espao para o meu manequim.
	Manequim...  Shane repetiu e empurrou o sof de encontro  parede.
	Sou costureira. Pretendo pendurar minha placa l fora.
	Quando?
	Assim que for possvel.
	Eu no posso trabalhar em meio ao barulho e  agitao  ele declarou de braos cruzados e pernas abertas.
O que o deixava ainda mais alto e sobranceiro. Talvez o houvessem ensinado aquele truque na escola de policiais. Porm Abby no o deixaria pensar que a intimidava. Jamais.
	O senhor entende de costura?
	No muito.
	No se trata de um servio barulhento. Fao muitas coisas  mo, como por exemplo as bainhas e os bordados. A mquina em si  muito silenciosa. Eu a escolhi, para poder trabalhar enquanto Belle dormia.
	E as pessoas que viro bater  porta a qualquer hora do dia ou da noite?
	No pretendo fazer produo em massa. Acho que no irei perturb-lo at a sua partida. O senhor nem perceber que estamos aqui.
	A senhorita assinaria um documento?
Antes de ela poder responder, ouviram uma barulheira na cozinha e o grito de Belle. Abby saiu correndo, no sem antes perceb-lo revirar os olhos.
	, nem perceberei que esto aqui...  Shane murmurou.

CAPITULO IV

	No estou ouvindo direito  Shane disse, ao telefone.  Quarto e comida? No foi o que li no jornal... Aluguel reduzido porqu? A senhora no pode diminuir o barulho? Mal posso ouvi-la. No d para tapar a boca das crianas? Aluguel reduzido para tomar conta delas?
Ele bateu o telefone sem se despedir e passou a caneta no segundo anncio de "Aluga-se" da edio de domingo do Miracle Harbor Beacon.
L embaixo, Abby cantava. De novo. Ficava evidente que na construo daquela casa no se dera a menor ateno ao isolamento acstico. Alis, ela vinha cantando com a maior alegria, desde que ele trouxera para dentro o ltimo pacote, por volta das sete da noite passada. Os primeiros trinados tiveram lugar enquanto ela desempacotava os mantimentos na cozinha.
Se fosse rock, ele a teria feito calar a boca. Mas tratava-se baladas suaves e romnticas.
Pior foi o que ouvira depois do apartamento dela mergulhar no silncio e Belle na certa estar adormecida no bero que dera mais trabalho para armar de que um enigma chins. No instante em que ele pensara que sua vida iria retornar na quietude abenoada, ouviu a gua corrente enchendo a banheira. Da sute de Abby.
Ressentia-se pelo fato de que, em pouco mais de vinte e quatro horas, perdera o controle de sua vida. Para ser honesto, estava cansado de testemunhar o destino atirando pedras em sua existncia.
O barulho de Abby afundando na gua, suspirando e cantarolando o fez sair para uma caminhada vigorosa. Teria de tir-la do pensamento. Um timo mtodo seria esquematizar mentalmente uns seis ou sete pargrafos de tcnicas de vigilncia.
Foi ento que Shane cometera o erro de vir pela alameda. Vira a luz tremeluzente pelos vidros embaados da janela do banheiro.
Uma imagem perturbadora se formara em sua mente. Abby dentro da banheira. Coberta por bolhas. Com sombras erticas lanadas pela lamparina na parede.
A reao fsica de Shane fora instantnea e constrangedora para um homem de sua idade. Subira a escada de dois em dois degraus e, em seu quarto, refletira se a vida monstica que vinha levando no o transformara no pervertido que ela o acusara de ser.
O que havia de errado com ele? Meninos adolescentes espiavam mulheres nuas. Ele no. Para provar a teoria, trabalhara furiosamente.  meia-noite, quando o silncio no quarto de Abby j se prolongava por mais de uma hora, Shane percebeu que passara trs horas digitando sem parar.
Escrevera dezesseis pargrafos de bobagens em jargo policial. Desligou o comutador sem salvar, foi para a cama, onde ficou acordado.
Uma hora mais tarde, desceu a escada  procura de um pacote de hambrgueres que comprara h mais de duas semanas e que no foi encontrado. Pensou em abrir uma lata de sardinhas.
A geladeira estava lotada de vegetais. Alface, brcoli, aspargos. Atrs de duas caixas de leite e uma embalagem de queijo ainda sem abrir, Shane encontrou uma lata de refrigerante que sabia ser sua.
Resistiu  vontade de experimentar o queijo. Para sobreviver nos prximos dias, teria de impor-se alguns regulamentos.
No mexer no alimento dos outros. Mesmo que fosse um pacote de hambrgueres, seria o primeiro.
Sem sono, voltou a seu quarto e comeou a elaborar uma lista de regras e um horrio para o uso da cozinha. Quando raiou a aurora, Shane saiu para uma corrida. Na volta, comprou o jornal.
J no rezava h muito tempo, mas ensaiou uma prece, ao discar o ltimo nmero no item "Aluga-se", na sesso de classificados.
Tratava-se de uma casa. Pequena e limpa, perfeita para um homem solteiro.
A suspeita comeou a avolumar-se. Ningum gostava de alugar nada para um homem solitrio. A no ser que o conhecessem.
Qual o endereo?, ele perguntou.
Ficava no meio das fileiras de chals em Cannery Street.
Shane desligou, sem dizer at-logo. Na Cannery Street s havia choupanas. Lugar depressivo com rottweilers acorrentados na frente e carros quebrados atrs. De todas as casas se avistava a fbrica de enlatados dos irmos Jones, fechada h cerca de quinze anos e atualmente deteriorada at o ltimo tijolo. Era uma parte de Miracle Harbor que ningum queria admitir que existia.
Desgostoso com os resultados de sua busca, permitiu-se rever os horrios da cozinha com uma ponta de satisfao. Ele faria uso do recinto bem cedo, quando Abby ainda estivesse dormindo. Depois o espao tornaria a ser seu, s doze e trinta. Precisava de poucos minutos para almoar. Jantaria entre sete e oito horas. Uma chaleira eltrica no quarto resolveria o problema de uma vontade inadivel de tomar caf.
Estabelecer normas rgidas poderia ser proveitoso, Shane re-fletiu. Se tudo corresse como o planejado, seria possvel que mal a visse. Nada mais de sesses com crianas no colo. Uma circunstncia que poderia confundir o pensamento de um homem.
Como dispunha do prprio banheiro, eles s teriam de compartilhar a cozinha e o vestbulo. Talvez isso no fosse to inconveniente como se mostrara ajjrincpio.
A voz alegre de Abby penetrava nas rachaduras do piso, nos encanamentos e nos buracos das paredes.
 Somos trs ursinhos carinhosos...  ela cantava para a filha, que ria sem parar.
Furioso, Shane rasgou o ltimo anncio e pegou a lista telefnica. Na quarta capa havia uma lista de apartamentos. Embora houvesse jurado nunca mais morar nesse tipo de construo, comeou a tarefa tediosa de ligar  procura de vagas.
Depois de mais uma hora, as esperanas se desvaneceram. Rabiscou na folha de horrios "No mexer nos pertences alheios na geladeira" e "No cantar". Reconheceu ento que, em prol da prpria sobrevivncia, estava se tornando um idiota e apagou o segundo item. A sua permanncia ali seria temporria. Qual o problema se Abby gostava de cantar?
A campainha da porta soou.
Shane franziu a testa. No se lembrava de t-la ouvido antes. Esperou que Abby atendesse. Nada. Tocaram a campainha de novo. E mais uma vez.
Afinal, no poderia ser mesmo para quem morava ali h menos de vinte e quatro horas.
Ele, que morava em Miracle Harbor h dois anos, tambm no esperava ningum. Havia removido qualquer vestgio de sociabilidade.
A campainha soou novamente.
Seria melhor mandar o vendedor embora, antes de que ela fosse abrir a porta e o convidasse para entrar.
Apanhou a folha de horrios, os regulamentos e desceu. No ltimo momento e tarde demais, percebeu o obstculo. No degrau inferior, ^nde antes no havia nada, fora colocado uma portinhola de madeira de uns setenta centmetros de altura.
Shane tentou pular por cima, mas prendeu o dedo do p e estatelou-se no cho. Teve a impresso que quebrara a rtula. Praguejou ao mexer-se, mas ao passar a mo pelo local da contuso viu que nada fora fraturado. Praguejou mais uma vez, lembrou-se de Belle e gemeu de dor, irritado.
Tocaram a campainha com insistncia.
Levantou-se com dificuldade e mancou. Foi at a porta, esfregando o joelho e preparou-se para amaldioar quem quer que estivesse do lado de fora.
A blasfmia congelou na garganta.
Uma senhora idosa e adorvel aguardava do outro lado. Trazia os cabelos grisalhos presos em coque, tinha olhos azuis e joviais, e sorria amavelmente. Usava chapu com uma pena vermelha e nas mos, uma bolsa. Uma vovozinha encantadora.
Shane abraou-se. Seria difcil bater a porta sem mais nem menos.
	Ol, querido  ela cumprimentou, amvel.
Ela certamente lhe percebera a irritao e ainda assim o chamava de "querido".
	Hum... Ol.
	Voc no me parece ser a costureira.  Uma risadinha.  Ela mora aqui?
Aliviado por no tratar-se de nenhum vendedor, Shane fitou-a com ar de tolo.
	Costureira? Aqui no...
Lembrou-se da mquina de costura que cara no dedo que estava to roxo quanto a canela, do hematoma do joelho e...
	Ah, sim, a...
A porta dos aposentos da costureira foi aberta e Abby saiu, corada, com os cabelos revoltos e nos braos a filha enrolada em uma toalha branca e felpuda.
Shane refletiu que a senhora idosa  porta parecia mais costureira do que Abby. Abby usava o jeans enorme e uma miniblusa molhada o suficiente para delinear o que havia por baixo. O umbigo estava  mostra.
O que Shane viu e imaginou pareceu-lhe ainda melhor do que idealizara na noite passada.
	O senhor caiu?  Abby perguntou-lhe, com os olhos arregalados.  Ouvi um barulho terrvel.
Shane limitou-se a fitar o pequeno porto.
	Oh, cus!  ela murmurou.  Eu o coloquei h uma hora. No queria que Belle o aborrecesse. Achei que o senhor o veria.
	At poderia ser, se eu tivesse dormido durante a noite.
	Mas no fui eu quem o perturbou, fui?
	No!  Shane negou, rspido, sabendo que uma mentira deslavada podia ser disfarada com um pouco de agresso.
Belle cantarolava a msica do urso e Shane teve certeza de que a maldita melodia no o deixaria dormir de novo naquela noite.
Na verdade seria prefervel ouvir a cano, do que ficar pensando na blusa molhada de Abby ou no seu umbigo ou nas sombras sobre a pele molhada e mal coberta pelas bolhas de sabo.
	Machucou-se?  ela perguntou, ansiosa.
Seria simples acabar com a preocupao dela. Bastaria contar-lhe sobre o que estava pensando. Assim, resolveria dois assuntos a um s tempo. Ela arrumaria as coisas e iria embora, em um piscar de olhos. Perverso confirmada.
Ele disse a si mesmo que s no o fazia em deferncia a Belle e  simptica senhora que os observava com grande interesse.
O joelho estava doendo bastante e Shane sentiu-o inchar.
	No  ele tornou a mentir.  A visita  para a senhorita.
	Para mim? Mas eu no conheo ningum aqui.
	Estou procurando uma costureira  a senhora idosa explicou.
	 mesmo?  Abby perguntou, contente.  Entre.
Shane abriu a porta de tela e segurou-a para a vov passar, faceira. Ela recompensou-o com um sorriso.
	Obrigada, querido. Eu pensava que o cavalheirismo j estivesse fora de moda.
	Ah, bem...  Ele teve uma ideia luminosa.  Por acaso a senhora no est procurando moradia para alugar? O apartamento de cima est  disposio.
	Ah, meu querido, eu no gosto de escadas. Mas espere. No  onde voc mora?
Shane franziu o cenho. Como ela podia saber disso? Ela deve t-lo ouvido descer.
, mas no ser por muito mais tempo  ele murmurou. Mesmo assim, ele gostaria que Abby tivesse uma locatria parecida com aquela mulher.
Por que senhoras idosas no gostavam de escadas?, Shane suspirou.
Pelo visto, teria tambm de preocupar-se com o fato. Encontrar um inquilino que no tivesse pensamentos diablicos toda vez que a ouvisse tomar banho.
Virou-se e pegou no cho o papel com os horrios.
	Estas so as horas em que ficarei na cozinha. Deixarei isto na porta da geladeira. Junto, h uma lista de regulamentos.
Sem esperar resposta, Shane foi para a cozinha. ms de geladeira em forma de pras e pssegos enfeitavam a porta antes de um branco imaculado.
	Vieram mesmo a calhar  ele falou alto e pregou o papel com um pssego.
Shane voltou para o vestbulo. Vazio e a porta de Abby, fechada. Pulou o porto com dificuldade e dor, subiu, os degraus mancando e entrou em seu escritrio. Fechou a porta com mais violncia do que o necessrio, apanhou uma folha de papel em branco e escreveu: "Sute para alugar em segundo pavimento. Cozinha e entrada de uso comum." Pensou um pouco e acrescentou: "Para inquilino de fino trato". A seguir trocou "para inquilino" por "Exclusivamente para moas ". Escreveu seu nmero de telefone ligou para o jornal.
A visitante andou pelo quarto e tocou na face de Belle com a mo enrugada.
	Que gentileza por parte do jovem atraente, colocar um aviso para que voc saiba os horrios em que ele estar na cozinha  ela comentou com Abby, fitando-a de trs dos culos de aros redondos.
Embora tentasse prestar ateno na senhora idosa, Abby estava com a mente voltada para o "jovem atraente".
No acho que essa tenha sido sua inteno  Abby sussurrou. A expresso de Shane, quando ela sara do quarto no fora nada animadora. Embora mostrar-se irritado fosse admissvel depois de um tombo. O olhar de Shane parecera-lhe mais escuro e intenso. Por qu?
Percebeu uma umidade desagradvel na blusa e abaixou o olhar.
Corou e entendeu o significado do olhar de Shane.
Sentiu calor.
Afastou aqueles pensamentos que lhe esquentaram a base do pescoo. Libertou uma das mos da toalha e fixou-se na recm-chegada.
	Sou Abby Blakely. Em que posso ajud-la?
	Sou Angela Pondergrove. Por alguma razo tola, as pessoas me chamam de Anjo. Estou procurando uma costureira. Imagine a minha surpresa quando "ele" abriu a porta. A mim parece que ainda no est to quente para se usar short, mas devo confessar que as pernas do jovem fizeram meu corao disparar como h muito no acontecia. Voc no acha que ele tem pernas lindas?
Abby pensou que j dera ateno demais  forma fsica de seu locatrio e resolveu no responder  pergunta.
	Como  que a senhora soube que eu era costureira? Acabei de chegar aqui.	.f
	Ah, Jordan me disse alguma coisa a respeito  a mulher explicou em tom vago. Jordan Hamilton, o advogado.
	Muita gentileza por parte dele, mas no me lembro de ter-lhe dito qual o meu ramo de atividade.
A mulher estendeu os braos frgeis.
	Posso segurar um pouco a criana? Voc no se recorda, mas deve ter deixado escapar algum comentrio. Jordan no es quece de nada, sabia?
Abby hesitou em entregar Belle. A sra. Pondergrove no parecia ter fora suficiente nem para aguentar o pouco peso da menina. Alm do mais, Belle costumava no se dar bem com estranhos, o que no acontecera com Shane.
Pensando nisso, Abby admitiu sentir um certo calor, sempre que o olhava. Talvez fosse melhor aumentar a lista de regulamentos.
O primeiro adendo: Apresentar-se sempre decentemente vestido.
Belle gostou de ir para o colo da sra. Pondergrove e esta se mostrou mais forte de que parecia.
	Sente-se  Abby sugeriu.
A sra. Pondergrove aceitou e depois de brincar com Belle por algum tempo, sentou-a no sof. A seguir tirou uma gravura de dentro do casaco cinza que j conhecera melhores dias.
	Era nisto que eu estava pensando  a velha senhora declarou.
Abby pegou a folha e espantou-se. Era o desenho de um vestido de noiva. O modelo, belssimo, tinha decote em forma de lgrima. O efeito era inocente e sexy ao mesmo tempo. O corpete era bordado e justo at a cintura, terminando em um "v" sensual destinado a acentuar as formas suaves dos quadris femininos. A saia ampla, longa e simples terminava em cauda.
	E maravilhoso  Abby murmurou.
Um traje que representava o sonho de qualquer jovem. Exata-mente o tipo que ela acreditara que um dia iria vestir.
Antes de Ty. E de Belle. E da morte de seus devaneios tolos de Cinderela. E por que se imaginava vestindo um igual? E por que o esboo motivava um desejo crescente dentro de si?
Na certa o vestido correspondia aos seus anseios mais secretos. Sob todas as declaraes de independncia, sob a habilidade com que administrava os desafios e dificuldades de ser me solteira, ainda havia a esperana de que o amor a alcanasse algum dia.
	Aconteceu alguma coisa? - a sra. Pondergrove perguntou. 
	No, claro que no  Abby apressou-se a responder e deixou o desenho sobre o assento do sof.
	Voc seria capaz de reproduzir o modelo em tecido?  a senhora indagou, ansiosa.
Abby olhou a gravura, sem peg-la.
Claro que poderia. Fazer um vestido daqueles seria uma glria. Imaginou qual deveria a textura do pano. Seda, sem a menor sombra de dvida.
Moldar, cortar e costurar no era o problema. Mas onde ficariam os prprios sonhos? A tarefa no faria germinar a frustrao do que no acontecera em sua vida? E que jamais aconteceria? Bem, poderia at chegar a usar um vestido de noiva. Porm, sendo me, teria de optar por uma roupa elegante e no pelo branco virginal como o da ilustrao.
Abby analisou a visitante e concluiu que a questo de fazer ou no o vestido era, felizmente, terica.
O casaco cinza de l da sra. Pondergrove era limpo e talvez j houvesse sido elegante. Naquela altura, mostrava-se pudo nos punhos e na gola. O chapu, embora de boa qualidade, era velho.
	Um vestido desses provavelmente demandaria um ms inteiro de servio  Abby explicou, gentil.  O tecido custaria uma pequena fortuna. Para dar um bom efeito, o bordado teria de ser feito  mo, o que encareceria muito o trabalho.
 Mas voc seria capaz de faz-lo?  a dama indagou, indiferente ao que Abby pretendia insinuar.
	Claro, mas para ser sincera acho que a senhora deveria comprar um pronto. Ficaria bem mais barato.
	Minha querida,  comovente a sua preocupao com os gastos de uma velha.
	Na verdade, o custo de fazer uma roupa dessas seria exorbitante.
	Bobagem. Para que serve o dinheiro, seno para fazer as pessoas felizes?
Finalmente, Abby decidiu-se. Fez o clculo do custo. Horas gastas na confeco e o material. Esperava que a sra. Pondergrove fosse recuar, assombrada.
	Minha querida, quando voc pode comear?  Foi a pergunta alegre da outra.
	A senhora quer mesmo que eu o faa? A esse preo?
	Mas  lgico! Quando voc pode comear?  a sra. Ponder grove repetiu.
	B... bem, s... suponho que de i... imediato  Abby tartamudeou.
	Perfeito. Deixe-me fazer um cheque.
 Ah. A senhora tem mesmo certeza? Afinal, nem mesmo conhece o meu trabalho.
	Na minha idade, pode-se avaliar a competncia de uma pessoa pelo olhar. Os olhos revelam muitas coisas alm disso. Por exemplo, o jovem que me abriu a porta. Eu digo que ele  uma pessoa extremamente solitria.
	E mesmo?  Abby perguntou, num fio de voz.
	Com certeza. E o menino est inconsolvel.
Abby no teve muita certeza se "menino" seria um termo que se aplicasse a Shane McCall. Alm de ele parecer o menos vulnervel dos homens.
De repente, lembrou-se de que Shane lhe dissera ser vivo e da amargura que vira em seu olhar, quando comentara que ele parecia muito jovem para enfrentar uma situao daquelas.
Amargura? Era assim que ele escondia a dor?
	Ele imagina que se conserta um sofrimento profundo iso lando-o com um bloco de gelo, o que est longe de ser verdade.
	 uma bela anlise, baseado apenas em um breve encontro 	Abby comentou, reparando nos olhos argutos que a examinavam.
	Tem razo. Agora, voltemos ao vestido. Como quer que eu faa? Um cheque no valor total?
	Oh, no! Uma tera parte agora, outra daqui uns quinze dias e o restante no fim, se a senhora ficar plenamente satisfeita.  Para quem  o vestido? Precisarei fazer as provas.
	Provas? Hum, receio que no ser possvel.
	Mas...
	O vestido  uma surpresa.
	No posso fazer uma roupa sem saber a quem se destina. No ficar bem-ajustado.
	No se preocupe. A jovem  da sua altura e tem exatamente o seu corpo.
	Que coincidncia...
	E no  incrvel?
Abby mirou a interlocutora. Era uma senhora adorvel, mas sem dvida excntrica. Talvez nem mesmo existisse uma noiva. Poderia aceitar o dinheiro dela?
	A senhora deve gostar muito dessa pessoa  Abby tentou obter mais alguma informao.
Em vez disso, ela ficou com um cheque na mo. Os olhos da sra. Pondergrove no podiam ser mais determinados, joviais e sensatos.
	Eu tenho com ela uma grande dvida, que jamais poder ser paga. Eu lhe devo a felicidade.
	No se pode dever a felicidade para algum  Abby protestou.
	Voc  muito jovem para entender isso  a dama suspirou. 	Mesmo, assim, a gente faz o que  possvel. Ah, eu acho que o branco no ser muito adequado para o vestido. Hoje em dia, essa moda j est ultrapassada. O que acha da cor marfim?
Abby refletiu que seria o ideal para si mesma. Mas como no queria ficar ligada sentimentalmente ao vestido, no podia pensar nisso. De repente, pensou em recusar. Porm uma me solteira no poderia permitir-se o luxo de no aceitar um trabalho lucrativo. Teria de esquecer aquelas emoes melanclicas, romnticas e tolas.
	Quando ser o casamento?  Abby perguntou, controlada.
	Eles ainda no marcaram a data, mas deve ser o mais rpido possvel. Voc se importaria se eu passasse por aqui de vez em quando para ver o progresso?
	Eu ficaria encantada.
	Foi o que imaginei. Seus olhos tambm so muito reveladores.
	E o que eles dizem?
	J falei demais para um dia s. No quero que se apavore com as minhas visitas e pense "j vem de novo aquela faladeira".
	Isso jamais me passaria pela cabea  Abby respondeu e deu uma risada.
Depois da sada da sra. Pondergrove, Abby apanhou o desenho e levou Belle at a cozinha. Deixou a ilustrao sobre a mesa e viu os horrios de uso afixado na porta da geladeira.
Organizado, parecia um itinerrio militar. Um pouco abaixo, os regulamentos sobre a utilizao, do refrigerador. Uma tabela perfeita, com margens e espaos equidistantes. O primeiro requisito era que os vveres "dela" deviam ser rotulados como sendo "de Abby".
	Fome  Belle anunciou, impaciente.
	Querida  Abby afastou os olhos da lista, parece que estamos aqui ilegalmente.
	Fome  Belle repetiu.
Aquela era a hora de Shane preparar o almoo. Bem, a regra comearia a ter validade a partir do dia seguinte.
Abby escutou-o descer a escada e abrir a portinhola, em vez de passar por cima. Ele entrou na cozinha mancando e fitou-a, aborrecido.
Ela no se incomodou com isso, ao ver o joelho inchado.
	A senhorita leu as normas?  ele perguntou, por entre os dentes.
	Acabei de ler.  Abby apontou a perna de Shane.  Isso aconteceu quando pulou o porto de criana?
	Foi.
	Oh, eu sinto muito, muito mesmo...
	A culpa foi minha. E quanto aos horrios? Parecem-lhe aceitveis?
	Bem, parece que terei livre acesso  cozinha, exceto em uma hora por dia. No estou me queixando, mas se o senhor quiser comer alguma coisa nos intervalos? Ou tomar um caf?
Shane estava plido de dor.
	Tenho uma chaleira eltrica em cima. No costumo tomar lanche.
	Ah, sei... Um homem metdico.
	Corre to.
	O que pretende fazer com seu joelho?
	Usar gelo e tomar um antiinflamatrio.
	Acho que seria melhor consultar um mdico.
	 mesmo?  A voz soou to gelada quanto as compressas que pretendia usar.
	.
	Ns nos entenderemos muito melhor, enquanto eu no encontrar novas acomodaes, se a senhorita desistir de dar-me conselhos.
	Perdo  Abby retrucou, com docilidade fingida.  Pode deixar que eu anotarei isso sob os horrios e as regras restantes.
	Isso ser timo.  Shane tornou-se ainda mais plido e teve de sentar-se.
	Eu farei alguma coisa para o almoo. O que prefere? Comprei pasta de amendoim ontem.  a preferida de Belle.
Que absurdo!, Shane revoltou-se. Como se ele tivesse dois anos! De tanto cuidar da filha, Abby perdera a noo do que era conveniente.
	Tambm posso fazer uma boa omelete.
	No quero que faa nada para mim* S pretendo que saia da cozinha nos horrios determinados.
	E o mnimo que posso fazer. Sinto-me culpada pelo estado de seu joelho.
	Obrigado. Eu sei.
	Somente agora li os regulamentos. Eu no sabia que a hora era sua.
	Mas agora sabe.
	Muito bem. Vamos embora, Belle.
A garotinha, ocupada em tirar as tigelas do armrio, esqueceu tudo e fitou a me, horrorizada.
	Belle com fome!  a menina gritou.
	E a vez do sr. McCall usar a cozinha. Podemos ir at o centro e comer alguma coisa.
	Ele vai dar comida. O mesmo que comi antes  Belle decidiu e voltou a brincar com as tigelas.
	Pelo amor de Deus!  Shane irritou-se e suspirou.  Bem, j que a senhorita quer mesmo ajudar, por que no pega um pacote de hambrgueres que est na geladeira?
Ser que era mesmo ironia o que Abby viu nos olhos estreitados?
Ela endireitou os ombros. No gostava de mentir.
	No esto mais l.
	Oh, no?
	Coloquei verduras no lugar.
	E bondosamente jogou minhas coisas fora.
	O senhor deveria agradecer-me. Eu impedi que fosse envenenado por comida estragada!
	Talvez fosse melhor do que morrer por causa de um porto infantil. Sou um homem livre. Se quiser, posso comer sanduche de hambrguer deteriorado!
Abby fitou-o e lembrou-se das palavras da sra. Pondergrove. Solitrio. Inconsolvel.
	Hum...
	O qu?
	Nada.
Abby fez uma omelete e ele agradeceu, carrancudo. Ela sentou Belle no cadeira alta de beb, serviu-a com um pouco da fritada de ovos e tambm sentou-se.
O desenho do vestido* de noiva estava bem  frente de Shane, que o examinava com suspeio.
	O que  isso?  ele perguntou, depois de algum tempo.
	Minha nova tarefa.
	E isso inclui achar um marido?  ele indagou, horrorizado.
Abby no entendeu como  que Shane tirara aquela concluso.
	A sra. Pondergrove, a que veio procurar-me, pediu-me que o fizesse para ela.
	Acho que  um pouco velha para usar um vestido desses.
Ela tirou a gravura da frente de Shane.
	 mesmo?! Pois eu acredito que nunca  tarde demais para sonhar  Abby respondeu com voz cortante.
De repente perguntou-se se falava da sra. Pondergrove ou de si mesma... Ou seria de Shane McCall?

CAPTULO V

	Esta roupa ficar ridcula, se usada por unia mulher idosa  Shane acrescentou, teimoso.
Ao olhar o desenho, ele imaginara Abby vestida nele. O que o lembrou de outra jovem em traje de noiva, caminhando na sua direo com os olhos to brilhantes de amor que fizera seu corao disparar.
	Claro que no  para ela - Abby explicou, aborrecida.
A sra. Pondergrove podia ser excntrica, mas certamente no usaria um vestido daqueles.
	A omelete estava tima  Shane reconheceu, de m vontade.
Na verdade, depois de uma dieta forada de hambrgueres e sardinhas, o que Abby preparara tinha o sabor de um manjar dos deuses. E contra isso ele teria tambm de ficar imune.
Shane sabia que pequenos detalhes eram sempre responsveis por maiores dores no futuro. Stacey costumava fazer uma torta de banana que ainda naquele momento o deixava desejoso. Comer hambrguer e sardinhas no deixava saudade.
	O segredo  usar gua  Abby informou e fez Belle comer mais um pedao da iguaria.
	Pensei que se usassem ovos.
Abby revirou os olhos.
	gua em vez de leite  ela explicou, com ar entendido.
Shane resolveu no revelar que ignorava a maioria dos assuntos culinrios, por achar que era um fato irrelevante.
	Bem, ento a sra. Pondergrove no ir usar o vestido. Suponho que ela tambm no ir pendur-lo na parede para admir-lo. Para quem ser?  Ele no podia esquecer como o desenho combinava com Abby.
	Isso  um interrogatrio?
	No.
	Ainda bem.
	Para quem  essa droga de vestido?
Shane percebeu-lhe a hesitao e os olhos estreitados. Se ela respondesse que no era do interesse dele, seria bem merecido. De fato, aquilo deveria constar do regulamento. Meter-se com os prprios negcios.
	Para a filha!  Abby garantiu, triunfante.
Shane, ex-policial, era capaz de distinguir muito bem quando algum faltava com a verdade. Principalmente uma pessoa como Abby, no acostumada a dizer mentiras.
Ela no o encarava. E insistir para Belle comer parecia ser uma questo de vida ou morte.
	Hum... A filha dela deve ter uns oitenta anos.
	A sra. Pondergrove no  to velha assim!  Abby protestou.
	Concordo que ela no seja mesmo to velha, mas suas filhas devem beirar os cinquenta. Pelo menos.
Uma vestido de noiva sempre vinha acompanhado de esperanas, sonhos e contos de fadas. Isso era bvio at para Shane, que se esforava para mantet o corao endurecido.
Abby ocupava-se em limpar manchas inexistentes do rosto de Belle e esta, em afastar-se.
	Bem, quem sabe se no seria para uma neta.
Shane teve certeza de que o vestido era para Abby, assim que viu o esboo. Aquilo e mais o livro que vira no carro levavam a uma concluso. Abby pretendia encontrar um marido.
Com um umbigo igual ao dela, certamente no haveria dificuldade nenhuma. A miniblusa permitia uma viso deliciosa, toda vez em que ela se movimentava.
A sra. Pondergrove provavelmente viera procur-la para costurar um pedao de renda no chapu. Ou consertar uma barra ou pregar um boto no casaco.
Sem aceitar mais um pedao de omelete, o que foi um exerccio de autodisciplina, Shane agradeceu-lhe friamente pelo almoo, levantou-se e saiu mancando da cozinha.
Na manh seguinte, Shane viu que Abby entrara no esprito do jogo. O guarda-loua haviam sido reorganizados. Tudo etiquetado. "Ele" e "Ela". As prateleiras da geladeira haviam sido divididas ao meio com aramados brancos.
No seu espao havia um pacote de hambrgueres dentro do prazo do vencimento e uma lata de sardinhas. O que tinha um ar pattico.
Shane sentiu-se culpado por Abby ter gasto dinheiro com ele, em vez de comprar alguma coisa para Belle.
Muito bem. No sentiria mais remorsos, pois no tornaria a v-la. Ou ouvi-la. Lembrara-se de um diskman com fones de ouvido e comprara um CD de rock, msica que o encantara em sua juventude. Decidira-se pelo ritmo que em nenhuma hiptese poderia ser considerado romntico.
Tomou o breakfast, que se consistiu em duas torradas, enquanto ouvia Acid Sam. Aborreceu-se. Talvez j houvesse amadurecido demais. Os vocais do conjunto feriram-lhe os tmpanos e a letra incomodou sua alma, j por demais sofredora.
A cozinha, muito limpa e arrumada, pareceu-lhe diferente. Mas Abby apenas acrescentara os ims de geladeira.
Ah, sim. A mesa nunca vira uma toalha. A que ento a enfeitava era em xadrez branco e vermelho. Aconchegante. Em nada lembrava um restaurante italiano, apesar das cortinas.
De novo a culpa atingiu-o, a despeito de seus esforos em reprimi-la. Um sentimento que procurara esquecer, durante todo o tempo de permanncia em Miracle Harbor. E tudo por causa de Abby. Quebrou o CD de Acid Sam no meio e jogou-o no lixo.
O silncio abenoado que se seguiu deu-lhe vida nova. Escutou um rudo abafado e pouco intenso. Devia ser da mquina de costura. Ao mesmo tempo, ouvia-se a conversa animada entre me e filha.
Imaginou como devia ser difcil trabalhar com uma criana em volta.
Tambm no pde deixar de pensar se Abby usava a mesma blusa diminuta naquela manh.
O telefone tocou no andar superior. Shane mancou por cima da portinhola e subiu para atender. Teve esperana de que fosse uma inquilina em perspectiva.
Mas no era. Harvey, um construtor, gostaria de rever a parte do anncio que se referia a locatrias. No se abriam excees?
Shane desligou o dcimo-stimo telefonema, todos de trabalhadores em construo, e foi at a janela.
Belle cambaleava pelo jardim dentro de um macaco azul que a fazia parecer redonda como uma bola de praia. A me vinha atrs, puxando um carrinho de mo com algumas caixas coloridas lotadas de bulbos.
No demorou e as duas comearam a cavar o solo, rindo.
Dali a pouco Abby tirou a jaqueta que vestia.
Shane sentiu a boca seca.
Em uma blusa justa como aquela, quem precisa ver umbigos?
Shane considerou a urgncia de acrescentar uma nova regra s j existentes.
"No usar miniblusas ou roupas colantes de qualquer espcie".
Bem, no devia esquecer que estava acostumado a andar sem camisa.
E se Abby tambm se sentisse perturbada por v-lo to  vontade?
Nesse caso, ambos estariam metidos em uma situao perigosa.
Gemeu com um sofrimento que nada tinha a ver com o joelho machucado, fechou a cortina e voltou ao computador.
Com o canto dos olhos, Abby viu a sombra afastar-se da janela. Ser que no podia fazer nada sem incomod-lo? H trs dias vinha para o jardim obm Belle para a filha tomar um pouco de ar fresco. E sempre se sentia observada.
 Ah, Abby  ela repreendeu-se em voz alta , o que a faz pensar que isso tem alguma coisa a ver com voc? Deve ser o sol batendo na tela do monitor que o atrapalha.
Levantou o rosto e deliciou-se com o calor do astro-rei. A primavera chegava mais cedo na costa do Oregon do que em Chicago. As condies meteorolgicas ali eram mais amenas e a temperatura, no inverno, no era muito baixa.
Quando sara de Chicago, ainda fazia muito frio e o tempo estava desagradvel.
Mesmo em maro, em Miracle Harbor o ar j estava mais quente e vinha carregado com o cheiro de gua salgada. Depois de cinco dias, Abby concluiu que estava apaixonada.
Mas no por Shane, apesar de seu corao pulsar apressado quando o via de calo, o que, alis, parecia ser o limite de seu guarda-roupa. Um fato muito natural. Ele provocara o mesmo efeito na sra. Pondergroye. Na certa, aconteceria o mesmo com qualquer mulher entre oito e oitenta anos.
Um homem admirado pelas mulheres era uma situao que Abby queria esquecer.
J tivera essa experincia com Ty. Elas eram atradas por ele como abelhas no mel e Ty agarrava as que conseguia. s vezes at se arrependia por ceder  tentao, mas continuava incapaz de resistir.
 Doura, acho que no tenho mesmo fora de carter  ele dissera, ao ser flagrado com uma amiga comum. Na ocasio, Abby estava grvida de seis meses.
Porm havia diferenas fundamentais entre Shane e o pai de Belle. Naqueles poucos dias, Shane demonstrara muita firmeza de carter. Mesmo assim, no era por ele que estava apaixonada. Era sensata demais para errar mais uma vez.
Na verdade, cara de amores pela cidade e pela costa do Oregon. No jardim de "sua" casa havia camlias e um marmeleiro carregados de botes prontos para florescer. Os salgueiros ondulavam com elegncia. A cidade toda era graciosa e linda. O povo amvel e solcito. Todos tinham o jeito da sra. Pondergrove.
J levara Belle  praia, a duas quadras de sua casa. O oceano era de uma beleza inacreditvel. Enorme, misterioso, mutvel, ora sussurrando, ora arrebentando. Belle encantara-se com a areia e, embora o tempo ainda no estivesse totalmente favorvel, conseguira molhar-se e fora levada de volta, sob protestos enrgicos.
Abby, preocupada com uma boa loja d tecido, encontrara duas e ambas com um bom sortimento. Havia comprado o tecido xadrez para alegrar a cozinha, com o qual fizera uma toalha de mesa e as cortinas curtas com babados.
Tambm adquirira vrios metros de seda cor marfim, fina e delicada.
J fizera o molde do vestido de noiva. Adorava costurar e o fazia desde menina, quando inventava os trajes para as bonecas com os retalhos de tecido de Judy. Cosia as prprias roupas desde a adolescncia. Sempre se sustentara, costurando para terceiros.
A encomenda da sra. Pondergrove era especial. Abby se absorvia tanto na tarefa, que o tempo e a realidade pareciam evaporar-se.
Mesmo naquele momento, praticando jardinagem com Belle, no se esquecia do vestido e refletia no que ainda faltava fazer.
J passava da uma hora, quando conseguiu tirar Belle da terra. Foram para a cozinha onde reinava a mais perfeita ordem, como se ningum houvesse passado por ali.
Abby abriu a geladeira. O pacote de hambrgueres estava pela metade. Shane j almoara.
Um aroma masculino espalhava-se pelo recinto.
Abby pensou em acrescentar uma regra  lista.
"Era proibido deixar um cheiro to inebriante."
Riu da prpria tolice, preparou um almoo rpido e voltou para seu apartamento. Deitou Belle no bero e recomeou o trabalho. Dentro de minutos Belle estava dormindo e a mquina, zumbindo.
Sem perceber, Abby comeou a cantarolar a Marcha Nupcial. Imaginou a figura esbelta da noiva entrando na igreja. No altar, o noivo, Shane McCall, fitava-a com os olhos brilhantes de ternura. Um sorriso suave iluminava-lhe o rosto sempre carrancudo.
De repente, a agulha parou de subir e descer. A lmpada da mquina piscou e apagou-se.
Abby tirou a mo do tecido depressa, como se a seda fosse a responsvel por aquela fantasia ridcula.
Nisso ouviu-o andar no pavimento superior, praguejando. Levantou-se e ligou o interruptor de luz. Nada. Ficou aliviada ao entender que se tratava de um problema com o sistema eltrico e no com a mquina de costura.
Saiu do quarto e encontrou com Shane no vestbulo com uma lanterna na mo e o mau humor costumeiro. At parecia culp-la pela falta de luz!
Ele a evitara com tanto empenho durante aqueles dias, que Abby quase esquecera do impacto causado por sua presena forte e mscula.
Shane vestia camiseta, agasalho de capuz e... short. Era impossvel deixar de notar as longas pernas musculosas e a circunferncia das coxas. A mancha roxa da canela desaparecera e o inchao do joelho diminura. Mas seu olhar continuava frio e impenetrvel.
	O que houve? Parece preocupado.
	No posso dizer o mesmo da senhorita, que no pra de cantar.
	D para ouvir?  Abby perguntou, envergonhada.
	Nem sempre. Em geral, ouo minhas prprias msicas.
	Eu nunca as escutei. Por isso achei que tambm no seria ouvida.
	 que uso fones de ouvido.
	Ah...  Seria uma reprimenda?  E quais suas preferidas?
	Vou tentar as clssicas;
	Tentar?
	Em considerao  minha idade.
Abby considerou que nunca vira um homem com maiores energia e vigor.
	Bem, ento deveria ouvir Bach.  timo para acalmar a irritao.
	Eu no estou irritado!
Abby arqueou as sobrancelhas.
	Apenas perdi uma manh inteira de trabalho  ele anunciou.
	No deu para salvar?
Shane distrara-se ouvindo-a cantar.
	Eu tenho o pssimo hbito de salvar ao final do captulo  ele disfarou.  Esqueo que a fiao eltrica desta casa  mais velha do que minha av.
Abby afligiu-se com a afirmao. Se fosse necessria uma reforma maior, no teria condies financeiras de execut-la no momento.
	Espero que seja apenas um fusvel  ele comentou, carrancudo.  Vamos at o poro. Eu lhe mostrarei onde ficam os dispositivos de proteo do circuito eltrico.
Abby j abrira uma vez a porta do subsolo e decidira no entrar l. Tinha cheiro de bolor e umidade. Seu nico pavor incontrolvel, o medo de aranhas, a fizera pressupor pela rpida olhadela, que a parte inferior da casa devia se o paraso dos aracndeos.
	Eu no vou.
Shane cruzou os braos e afastou as pernas uma da outra. Mesmo de short, era o prottipo do policial no comando.  Pois eu acho que vai.
	Como ?
	Srta. Abby, no vou ficar aqui por muito tempo, pois h vrias pessoas interessadas em ocupar meu lugar. Por isso,  necessrio que saiba onde est situada a caixa de fusveis, a fornalha e as janelas de inverno.
	Ah...
Abby no podia compreender por que se convencera de que Shane no iria embora. Pelos dirios matutinos, pudera comprovar os poucos anncios de "aluga-se".
	O senhor j encontrou uma moradia?
	Tenho alguma coisa em vista  foi a resposta um tanto vaga.
	Bem, ento no ser necessrio preocupar-se com meu inquilino. Eu mesma posso providenci-lo.
Shane fez ar de pouco-caso.
	Claro que posso!
	Esta cidade est infestada de homens que trabalham em construo. No acredito que pretende expor Belle  esse tipo de gente. Praguejando e...
	Pelo que ela tem ouvido ultimamente, j deve at estar acostumada.
O pescoo de Shane ficou vermelho.
	Eu estava morando sozinho. Se ficasse furioso, podia falar o que me viesse  cabea.
	Ento acho seu estado normal  o "furioso".
	Atualmente !
	Posso saber por qu?
	A minha canela est da cor de uma ameixa, tenho uma unha do p prestes a cair e um joelho do tamanho de uma bola. Estou acostumado a correr para gastar as energias e relaxar, e h quase uma semana no tenho podido faz-lo.
Abby compreendeu qufe ele evitava a questo real. Parecia fascinado pelo crculo de luz da lanterna.
	E por que precisa tanto descontrair-se?  ela perguntou, em voz baixa.
	Porque, se no o fizer, no conseguirei trabalhar.
	A minha pergunta referiu-se  origem de tanta presso.
	Eu entendi muito bem a sua curiosidade.
Shane fitou-a intensamente, como se fosse fazer-lhe alguma confidncia, mas deu de ombros e movimentou-os  maneira dos lutadores de boxe em meio a dois rounds.
	De qualquer modo, sinto-me responsvel e quero deixar uma pessoa decente em meu lugar. No deve ser nenhum rapaz que se faa de engraadinho e fite com olhos obscenos o seu umbigo.
	Meu o qu?
	Ser que no existem blusas mais compridas no comrcio?
	E porque o senhor no usa cala?
Por um instante, o ar pareceu incendiar-se ao redor deles.
	Vamos dar uma espiada no poro  Shane mudou de assunto.
Abby hesitou, mas teve de mover-se, depois de ele lanar-lhe um olhar decidido por sobre o ombro.
	Vamos  ele insistiu.
Abby no queria contar-lhe sobre a nica fobia que a acompanhava na vida. Os degraus terminavam na porta.
	V na frente  Shane ordenou.
	De jeito nenhum.
Shane era grande o suficiente para desfazer as teias que encontrasse pela frente. Abby seguiu-o bem de perto, a poucos centmetros de suas costas.
O subsolo devia ser horrvel, a julgar pelo mau cheiro, Abby pensou, recusando-se a tirar os olhos das omoplatas largas. Seguiu-o como uma sombra, sem deixar de notar os lugares escuros e as imagens fantasmagricas que se formavam sob os movimentos da luz da lanterna.
	Est aqui  Shane iluminou uma tampa de madeira.
	No  a primeira vez que vem aqui, no ?
Ele riu sem vontade.
	 melhor preparar-se para fazer esse trajeto algumas vezes por ms.
	 mesmo?!
Abby conteve um estremecimento e, cautelosa, olhou ao redor. Afinal no era to ruim. Paredes lisas de concreto. Algumas prateleiras vazias. Nada que no se pudesse- enfrentar.
	Conhece uma caixa de fusveis?
	Ah-ah...  ela mentiu, analisando o ambiente com mais coragem.
Talvez houvesse ganho uma residncia sem aranhas no poro. Afinal estavam em Miracle Harbor.
	A atrs no d para ver direito  ele a censurou.
Abby contornou o escudo humano e, obediente, prestou ateno ao que ele fazia.
	Para uma casa como essa, a instalao no  to velha. Talvez uns vinte e cinco anos.
	Que bom  ela murmurou e acompanhou o facho de luz. Bem em cima da caixa, uma teia brilhou como se fosse feita de fios de ouro. Abby abaixou o olhar, mas a viso perifrica apurada percebeu, nos suportes cruzados do teto, uma decorao digna do dia das bruxas. Incontveis teias de aranha pendiam do forro, entrelaadas.
	Preste ateno. Aqui h etiquetas referentes  casa toda.
Dormitrio, piso superior, banheiro, e assim por diante. V esta chave fora do lugar?
A teia pareceu mover-se e uma aranha, a maior que Abby j vira, comeou a descer. Cinzenta, de cabea pequena, corpo enorme e pernas peludas.
Abby gritou e jogou-se de encontro a Shane.
	Mas... o que foi?
Embora surpreso, Shane abraou-a. Abby comprovou a fora daqueles msculos e, com a cabea escondida em seu peito amplo, sentiu-lhe o bater do corao.
	Eu... eu... sinto muito.  Abby tremia.  T... tenho pavor... Para piorar a humilhao, ela comeou a chorar, quando tentou revelar a verdade embaraosa.
	Shh...
Ele ergueu-lhe o queixo com suavidade. Abby nunca o vira com um olhar daqueles.
Muito alm de uma simples preocupao, irradiava uma ternura imensa.
Exatamente como ela o vira em suas fantasias, aguardando-a chegar ao altar vestida de seda cor marfim.
Abby aspirou o perfumfe msculo e sentiu-se envolvida pelo mesmo aroma delicioso que notara na cozinha. Odor de pinheirais depois de uma tempestade. Acalmou-se e, com um suspiro, parou de chorar. Era uma sensao maior de que segurana. Tomava conscincia da prpria feminilidade. Sentiu-se pequena diante de Shane e macia de encontro  rigidez. Percebeu que suas curvas se encaixavam perfeitamente no fsico reto e masculino.
	Tudo bem  ele olhou em volta.  No deixarei que nada a machuque. Respire fundo.
Ela obedeceu, colada nele. A percepo de que nem uma folha de papel passaria entre os dois a fez afastar-se, relutante.
A aranha deu um pulo direto at o ombro de Abby. O mundo comeou a girar, tornou-se gneo, clareou e novamente ficou vermelho. Abby sentiu-se sugada por um funil. Seus braos e suas pernas perdiam as foras.
"No desmaie", ela ordenou a si mesma. Depois implorou.
Nisso, tudo escureceu.
O corpo de Abby largou-se como peso morto.
Shane segurou-a com vigor e sua primeira reao foi achar que se tratava de um estratagema tirado do manual que ensinava como agarrar um homem.
A cabea de Abby caiu para trs, a boca amoleceu e o rosto ficou branco, com os olhos revirados.
Abby desmaiara. Pura e simplesmente.
Shane levantou-a no colo, notou que ela no pesava quase nada e subiu a escada, sem lembrar-se do joelho ferido. Deitou-a no sof e tomou-lhe o pulso. Normal.
Ele entrou no apartamento dela e foi at o banheiro. No sem notar que tudo se encontrava na mais perfeita ordem. O cesto com os brinquedos, os arranjos de flores, as belas gravuras emolduradas nas paredes. Abby havia criado uma atmosfera jovial e aconchegante.
Shane umedeceu a toalha na pia e procurou ignorar o suti de renda pendurado no boxe.
Voltou ao hall, sentou-se ao lado de Abby no sof e apoiou o tecido felpudo na testa plida. A jovem pestanejou e abriu as plpebras. Olhou-o espantada, abaixou os clios e gemeu.
	Por favor, diga-me que no desmaiei. Por favor.
	Bem, se no foi desmaio, ento voc teve um ataque cardaco, o teria sido bem pior.
	No sou do tipo que perde os sentidos. De verdade.
	J me convenceu.
	Isso acontece s por causa de minha fobia por aranhas. Nem mesmo sei o motivo. Eu odeio essa tolice que no deixa de ser um sinal de fraqueza.
Mas quem  que iria entrar no subsolo  procura de fusveis queimados no lugar de Abby? As candidatas que haviam marcado entrevista para no dia seguinte? Mas se eram mulheres...
Ainda assim, uma delas poderia no ter medo de aranhas, entender de eletricidade e saber como dar pancadas em fornalhas temperamentais com uma chave inglesa. A sua sucessora deveria tambm ser capaz de subir a escada alta de mo, tirar as janelas de inverno e substitu-las por telas.
Aquela era uma moradia que, infelizmente, precisava de um homem.
	Eu me sinto uma idiota  Abby murmurou e tentou sentar-se, no que foi impedida por Shane.
	Fique deitada por um minuto. Voc no tem de provar coisa nenhuma.
E ela era uma mulher que tambm estava  procura de um homem. O livro secreto atestava isso.
	E nem estou tentando  ela voltou a deitar-se, apesar da rebeldia.
Alguns minutos mais tarde, Shane a deixou, extremamente perturbado, como h muito no se sentia.
Abby demonstrava independncia, alm de ser competente. Trabalhava duro. A mquina de costura zunia o dia inteiro e muitas vezes, parte da noite. Apesar das dificuldades e da filha, Abby era incrivelmente bem-humorada.
Embora o incidente com as aranhas o tivesse deixado cnscio da fragilidade subjacente.
Com certeza Abby no aceitaria a ideia de que precisava de algum para cuidar dela. A proposio deveria ir alm.
Ela no necessitava de um protetor, mas de uma pessoa para dividir o peso da carga.
Um locatrio que soubesse trocar fusveis no seria o mais importante.
Abby carecia de um companheiro ideal. Literalmente.
Ainda bem que Shane no tinha iluses de ser o escolhido. J havia falhado completa e irrevogavelmente nesse campo.
CAPTULO VI

Quando o apartamento ficar livre? Posso dar uma espiada nele?
Abby no fitou Shane e nem a candidata sentada  frente deles na mesa da cozinha. H uma semana, ambos entrevistavam os provveis inquilinos, durante os horrios de sono de Belle.
Lola era quase careca, exceto por uma faixa de cabelos vermelhos no meio da cabea. Ostentava trs piercings em forma de anel no lbio inferior, fora os que enfeitavam as orelhas. O da sobrancelha pareceu a Abby ser o mais dolorido.
	Eu j lhes disse que tenho um bicho de estimao?  Lola perguntou.
	Quando falamos ao telefone, no  Shane respondeu, com agressividade completamente ignorada -por Lola.
	Bem, no se trata de cachorro, gato ou qualquer outro que solte plos ou deixe cheiros pela casa.  um iguana. Iggy.
Abby conteve-se para no rir, ao ver a expresso incrdula de Shane.
	No permitimos ces, gatos ou rpteis.
	Que decepo...
	, s vezes temos de enfrentar alguma na vida.
Lola pegou a bolsa, levantou-se e olhou-os com orgulho.
	Sei que fui discriminada por minha idade. Vocs esto usando Iggy como desculpa. Aposto que legalmente ele nem  classificado como bicho de estimao. Posso process-los.
	Na verdade  Shane ficou em p e assumiu a postura intimidativa de policial   s por causa do iguana. O vestbulo e a cozinha so de uso comum. Abby tem uma filha de dois anos. A menina ficar nervosa com um animal rastejando pela casa o tempo todo.
	Uma criana?  Lola horrorizou-se  No suporto crianas. Sinto muito ter perdido meu tempo.
Lola saiu da cozinha, com pose de rainha. Abby conteve-se at ouvir a batida da porta da frente e s ento deixou escapar a primeira risada.
	No acredito  Shane comentou.
Abby abaixou a cabea sobre a mesa. Os ombros sacudiram-se e ela comeou a rir at chorar, ao perceber que Shane tambm ria.
	Ah, Shane, quando ela disse que fumava maconha para fins medicinais, pensei que voc fosse prend-la.
	No tenho jurisdio no Estado de Oregon. Alm de eu ainda alimentar esperana de que, apesar de tudo, ela entendesse um pouco de eletricidade.
 E ela pensou que fusvel...
	Fosse um tipo de cachimbo.
Ele abrandou a seriedade da expresso e comeou a rir, ao entender como as conversas tinham sido hilariantes. O riso de Shane foi puro, lmpido e maravilhoso.
	E essa  ele tentou falar, entre risos  foi a melhor das candidatas que apareceram nesta semana. Quantas foram ao todo?
	Dezesseis. Mas ela n|o foi a melhor. Eu poderia ter aceitado aquela senhora que tossia.
	Ela devia ter problemas pulmonares! J pensou na sua filha?
	A mulher da bengala tambm me pareceu bastante aceitvel.
	Mas como  que ele iria instalar as janelas contra tempestade no segundo andar?
	Eu mesma posso fazer isso!
	S passando por cima do meu cadver!
	Posso contratar algum que o faa.
	Mas voc no faria isso.
	Srio, Shane, eu acho timo deixar tudo do jeito que est. Voc no concorda? Onde  que pretende morar, se sair daqui? Em uma casa cheia de gente como Lola? Existem coisas bem piores do que eu e Belle.
	Pelo amor de Deus, eu jamais disse que no gostava de vocs. Espero no ter dado essa impresso.
	Mas d! Voc me evita como se eu fosse uma praga. Exceto durante as reunies com os interessados em ocupar a sua vaga.
Abby chegava  concluso de que a troca seria impraticvel, pois ele s marcava entrevistas com senhoras de uma certa idade. Lola e mais umas duas ou trs jovens foram uma exceo.
E mesmo que Shane desse a oportunidade para rapazes, Abby estava convencida de no desejar a mudana.
A vida ficaria terrivelmente vazia sem ele no andar de cima. E sem o pacote de hambrgueres na geladeira.
	Abby, voc est totalmente enganada quanto ao motivo de eu ignor-la...
	Ento por que ?
Shane virou o rosto, bastante srio naquela altura.
	 por mim. O problema  comigo.
Abby aguardou. Os primeiros fios tnues e frgeis de um relacionamento haviam se formado naqueles dias, enquanto conversavam com os interessados. E ela no desejava romp-los.
	Quando Stacey, minha esposa morreu...  Shane vacilou.  Bem, eu queria ficar sozinho, sem ningum, sem emoes, fos sem elas boas ou ruins.
Abby fitou-o, consternada. As feies firmes pela primeira vez demonstravam a fragilidade da muralha que ele erguera a seu redor.
	H quanto tempo foi isso?
	H pouco mais de dois anos. No me diga que eu j deveria ter superado isso, por favor.
	Est bem, Shane, mas  preciso- admitir que tem levado uma vida muito solitria.
	Eu sei.
	E se eu prometer que nada farei para romper essa insensibilidade forada?
	Voc no pode fazer uma promessa desse tipo.
	Por qu?
	Porque tenho sido atormentado por sentimentos incontrolveis.
	Por exemplo?  Abby reuniu toda sua coragem para a pergunta.
	Vontades como esta.
Shane levantou-se da cadeira e chegou perto de Abby, que no teve foras para afastar-se.
Era o que ela mais desejava. De corpo e alma.
Abby fechou os olhos e sentiu os lbios de Shane tocarem os seus. Todos os lugares escurecidos pela traio e pelo amor com final triste voltaram a iluminar-se.
Abby s beijara um homem em sua vida e isso foi o suficiente para reconhecer a diferena de imediato. Ty exigia, faminto e egosta, sempre pensando em si mesmo.
O beijo de Shane deixava implcito que era um momento para compartilharem juntos.
Abby teve a impresso de que o sentimento que mantivera acorrentado dentro de si acabava de libertar-se e pairava alto, bem acima das inseguranas, das provaes e dos sofrimentos dos mortais. Aquele era o outro lado, o sonho de toda mulher. A parte gloriosa e humana que criava asas e tocava o Olimpo.
Abby abraou-o pelo pescoo, puxou-o mais para perto e entregou-se ao beijo profundo. Sentiu-lhe o poder dos braos e a paixo da alma, quando Shane a apertou com um gemido de desespero e rendio.
Ele se afastou de repente, deixando-a arfante e incapaz de esconder o desejo que a invadira.
	Desculpe-me  ele pediu, sem fit-la, passando a mo nos cabelos curtos.
Era a ltima coisa em que ela pensaria naquele momento.
	Desculpar?  Abby sussurrou.
	 por isso que no podemos ficar sob o mesmo teto.
	Ah... claro.	
Shane fitou-a, srio e perturbado. De repente, ocorreu-lhe uma ideia.
	Espere, j sei.
Abby no teve vontade de saber qual a soluo para o dilema de Shane, encarado por ela como um presente dos deuses.
	O que ?
	Sei onde encontrar a pessoa perfeita para morar com voc.
Abby teve a impresso de perder todo o calor do corpo e de ser carregada de roldo por uma repentina tempestade de vero que a deixava ensopada e trmula.
	E onde ?
	Na igreja  Shane afirmou, triunfante.  No deve ser o lugar preferido por Lola ou outras tantas, no acha?
	 mesmo  Abby concordou, sem emoo.
Belle acordou do sono da tarde e comeou a chorar.
	Ponha sua filha no carrinho  ele mandou.  A Igreja de St. James fica bem prxima daqui. Vamos ver se eles tm um quadro de avisos ou qualquer coisa semelhante.
Abby teve muita vontade de recusar, mas no o fez. Aceitou a imposio de Shane e sentiu-se uma idiota.
Ser que pretendia mesmo morar junto com ele?
"Sim."
O que no lhe pareceu uma ideia sensata. De jeito nenhum. 
Shane no podia acreditar no que acontecera. Beijara Abby. E os lbios dela eram a coisa mais doce que j havia experimentado. Imaginou que fora como estar em um deserto, ressequido e sem esperana, e encontrar um osis. Abby. Com gosto de fruta suculenta que saciara a sede que o consumia.
O que lhe dava uma certeza.
Teria de afastar-se de Abby. Do apelo e da tentao que ela representava.
Deixar um recado na igreja fora uma ideia luminosa.
Mas por que pedira para ela vir junto?
No raciocinara direito. A presena de Abby era indiferente para a resoluo do problema.
Ser que desejava a companhia dela?
"Sim."
Mais um motivo para apressar-se.
Abby, embora fosse independente, precisava partilhar a vida com algum.
Belle era um encargo difcil.
E a casa velha tambm seria.
Shane no se sentia como a pessoa certa. Abby necessitava de um companheiro que no estivesse com o corao em pedaos. De um homem que a amasse por ela e por completo. Sem estar preso a nenhum fantasma.
Amava um espectro? Shane reconheceu que a frase no espelhava a realidade. Amara Stacey, enquanto ela era viva. Depois de sua morte, fora envolvido no sofrimento da ausncia.
Ressentia-se das emoes conflitantes que no o invadiam. E por Stacey haver demonstrado que Shane McCall no era infalvel.
Mas sobretudo no que a esposa o tornara. Um fracassado.
Ele falhara quando Stacey mais precisava dele.
No conseguira salv-la.
Abby no precisava de um homem com esse tipo de bagagem. Um que malograra em propores gigantescas. E em uma rea to crucial.
Sentou-se diante do notebook e escreveu:
Procura-se. Inquilino para apartamento superior. Cozinha de uso comum.
Com grande dose de disciplina, no acrescentou somente para senhoras. Se as ltimas dezesseis pessoas fossem um indicativo, seria quase impossvel encontrar uma mulher que soubesse o que era um fusvel.
Se aparecesse um bom rapaz, frequentador da igreja, entendido em eletricidade e que apresentasse bons antecedentes, at poderia servir para Abby.
Ao tirar o papel da impressora, Shane teve a impresso de que rasgava o prprio corao.
Desceu a escada e encontrou-a no hall, sorridente, mas cautelosa.
Sabia que a precauo era motivada por sua atitude intempestiva de beij-la e pela atmosfera tensa que ento os envolvia.
Belle, indiferente s emoes dos adultos, ergueu-se no carrinho, excitada por ver Shane. Por que ela demonstrava tanto carinho por ele? Eram as crianas donas de um instinto que as fazia reconhecer o interior das pessoas?
	Colo?  Belle pediu, com sua voz fininha e estendeu os braos para ele.
	Belle, sente-se, antes que leve um tombo  Abby repreendeu a filha.  Colo, no.
Belle ignorou a me, e Shane, indefeso, viu-se sem alternativas. Pegou-a nos braos.
	Posso lev-la. No precisamos do carrinho.
Belle segurou-o pelo pescoo e brindou-o com um beijo molhado no rosto. Naquela altura, ele tinha sido mais beijado em um dia do que nos ltimos dois anos.
	Tem certeza de que pretende mesmo lev-la? Ela  mais pesada do que parece.
	No h o menor problema.
Abby saiu primeiro e depois acompanhou Shane, que conhecia o caminho.
Shane refletiu que eles pareciam uma famlia passeando na rua com a filha que dava gritinhos, ao ver um gato espreguiando-se ao lado de um poste.
	Nome  a menina pediu.
	Gato  Shane respondeu.
Abby deu uma risada
	No se trata da espcie zoolgica.  uma espcie de jogo. Um costume. Dou nomes a todos os animais que encontramos.
	Como assim?
Abby fitou o bichano com seriedade.
	Os plos do coitado esto meio... Ah, sr. Andrajoso.
	No voc  Belle apressou-se em explicar para Shane, apontando o dedo gorducho.  Ele.
	Ah, sei...  Shane fitou o animal.  Que tal sr. Trapos?
Belle franziu a testa.
	Quanto mais slabas, melhor  Abby sussurrou.
	Hum. Ento que tal sr. Belotraseiro?
Belle sorriu, feliz por ele ter entendido rpido. Shane perguntou-se se no fora um deslize freudiano provocado por algum tipo de perverso.
Afinal, quem tinha uma estampa de costas de perder o flego, seno a mulher que caminhava a seu lado?
	Agora, andar  Belle pediu.
Shane deixou-a no cho e logo percebeu que o pequeno trajeto at a igreja iria demorar muito mais do que o previsto. Belle se agachava e inspecionava praticamente "tudo". Minhocas secas, palitos de picols, folhas. Tudo era analisado e as explicaes dos adultos tinham de ser minuciosas.
O processo o atingiu de forma dolorosa.
Se Stacey estivesse viva, aquela teria sido sua vida. Passeios com uma menina que provavelmente teria a idade de Belle. Com a cabecinha cheia de perguntas, espanto e vivacidade.
Uma emoo j conhecida era ser esmagado sob o peso dos prprios sentimentos. No era somente Abby que precisava de um homem sem passado trgico. Belle tambm. A criana precisava de uma pessoa que olhasse por ela, sem lamentar as prprias perdas.
Belle apontou para planta espinhosa e proclamou, solene.
	Boba! No pode pegar!  Belle afastou-se e Shane sorriu.
Chegaram  igreja. Na parede do hall externo havia um quadro de avisos e Shane pregou o anncio.
	Voc no gostaria de entrar um pouco?  Abby perguntou.
	E para qu?
	No sei. Gosto de igrejas. Elas sempre tm um cheiro agradvel em seu interior e transmitem muita paz. Desde pequena, eu pedia a Deus para cuidar da minha me de verdade, onde quer que ela estivesse. Talvez ela esteja l em cima com Ele, tomando conta de mim.
As palavras de Abby fizeram-no lembrar-se de que no fora o nico a sofrer perdas.
Shane estremeceu e seguiu-a pelos degraus largos de pedra da entrada, com esperana de que estivesse trancada. No estava.
Assim que entrou, teve certeza de que cometera um erro. No era um homem de frequentar templos. Nos ltimos anos, s fizera aquilo duas vezes.
Quando se casara com Stacey.
E quando a enterrara.
Hesitou. Abby tomou Belle pela mo e caminhou pela nave lateral. Parou junto a um banco, esgueirou-se no espao estreito e fitou o altar.
A luz que penetrava por um vitral deteve-se em seu rosto e deixou-a ainda mais bela.
Abby inclinou a cabea e juntou as mos em prece.
Sentindo-se meio perdido, Shane sentou-se em um banco dos fundos,  espera de Abby. O silncio e o aroma tiveram um efeito benfico. Abby tinha raz^o. Era um lugar de paz.
Talvez at em excesso. Sua cabea pendeu sobre o peito. Tinham sido muitas noites maldormidas, sem conseguir esquecer a voz de Abby cantando para a filha. Detestava pensar que a lembrana do sabor dos lbios macios seria mais um motivo para ficar acordado.
Stacey. Ele a sentiu, antes de v-la.
Estava linda. Os cabelos negros, longos e soltos. Usava um vestido comprido branco e difano. Shane ficou muito feliz por sua presena.
Mas ela no parecia feliz em v-lo.
Estava com as mos nos quadris, em uma posio da qual se lembrava muito bem e que no lhe agradava. Como uma vez, ainda recm-casados, ele fora beber com amigos depois de um dia difcil e no a avisara.
	Voc  um tolo  ela disse.
Shane queria falar, mas no podia. A lngua pesava dentro da boca.
	Shane, voc no pode continuar dessa maneira. Cheio de autocomiserao. Pensando em si mesmo o tempo todo.  puro egosmo.
Ele quis protestar, mas a lngua no obedeceu e os lbios no se abriam.
	Esta jovem encontra-se sozinha na cidade. No conhece ningum. As irms ainda no chegaram. Ela tem uma filha e cuida da criana o dia inteiro. A situao no se constitui apenas de beijos e abraos.  bem mais difcil do que parece. E voc nem ao mesmo quer ser seu amigo. O que est acontecendo com voc?
Shane no se lembrava mais daquele lado da personalidade de Stacey. Uma vez, ao chegar em casa depois de um cerco policial que fora televisionado, ele a encontrara furiosa. Stacey afirmara que o marido exagerara, que fora rude demais. Mesmo ao explicar-lhe que o meliante tentara atingi-lo, ela afirmara que isso no era desculpa para uma atitude drstica.
O fato o transformara de uma maneira fundamental e permitira que se tornasse um policial melhor e mais humano.
Stacey aproximou-se de repente, o que fez com que o vestido esvoaasse.
	Esse no  o Shane McCall que eu amava e que sempre procurava agir de modo correto  ela falou com suavidade.
Ela se virou e fez meno de ir embora, ondeando os cabelos. Depois voltou-se, chegou at ele e sacudiu-o pelos ombros.
	Acorde.
	Shane, acorde.
	Ah?  Ele abriu os olhos e, espantado, viu Abby que o fitava, sorrindo.
	Estou pronta. Vamos?
Shane levantou-se, desorientado e tonto.
	Devo ter cochilado. Perdoe-me.
	No tem do que desculpar-se.
	No estava falando com voc.
Abby fitou-o, frustrada. Shane sacudiu a cabea, para afastar o nevoeiro da mente e pegou Belle no colo. Saram pela nave lateral e Belle adorou os desenhos que a luz formava no cho ao passar pelos vitrais coloridos.
Do lado de fora da igreja, Abby analisou o rosto srio de Shane.
	Eu lhe disse que a paz nos envolve dentro de uma igreja  ela afirmou, sorridente.  No sei se voc  da mesma opinio.
No adiantaria dizer-lhe que no fora to pacfico para ele.
	Muitas vezes eu cochilo durante o dia, pois nem sempre durmo bem  noite. Por isso adormeci.
	Isso aconteceu depois de minha chegada?
	No.
	Desde que sua mulher morreu?
	Sim.
	Voc a amava muito, no ?
	.
	Como foi que ela morreu?
	Ela caiu da escada. Eu no estava em casa.  Era seu dia de folga, mas tivera de atender um chamado urgente do trabalho.
 Estava grvida de oito meses.
Shane arrependeu-se do que revelara. Abby, com os olhos rasos de gua, tocou-lhe no brao de leve. No disse uma s palavra e Shane agradeceu-lhe por isso.
Ele pigarreou.
"Aja de modo correto."
O certo para ele era manter-se afastado de Abby e liberto de envolvimentos. Mas no resistiu  pergunta.
	Voc j teve... algum namorado depois de...
	Eu no costumo sair. Com Belle e tudo o mais...
	E aqui no conheceu ningum, nem mesmo outras mes no parque ou coisa assim?
Abby desviou o olhar, mas Shane percebeu-lhe novamente os olhos midos. Dali a instantes, encarou-o com uma vivacidade falsa que escondia a solido.
	Bem, falo bastante com a sra. Pondergrove. E minha irm Brittany chegar aqui at o final do ms. Falei com ela uma noite dessas e sabe o que descobri?
	O qu?
	Ela morre de medo de aranhas!
	Voc est brincando.
	De jeito nenhum. Nem posso descrever o que senti, quando ela me contou o fato.
Pelo brilho no olhar de Abby, Shane deduziu que era um sentimento reconfortante. Saber que no estava sozinha no mundo.
	Existem coisas bem piores de que ter medo de aranhas.
	Diga uma!
"Ter medo da vida".
	Conheci um policial que tinha pavor de agulhas. Um homem maior do que eu. Uma vez fomos convocados por um hospital, depois de um acidente de carro. Crianas pequenas precisavam de muito sangue. Do mais raro. Ambos tnhamos esse tipo sanguneo. Ele desmaiou, assim que espetaram a agulha em sua veia.
	E verdade?  Abby perguntou, deliciada.
	Uma fobia no  um defeito de carter. Aquele homem era um dos mais corajosos que j conheci.
	Obrigada, Shane.
	No sou completamente tolo.
Ela o fitou, espantada.
	Quem o chamou de tolo?
	Algum que reconhece um, quando o v.  Ele suspirou.  Vamos comer alguma coisa?
Shane no entendeu o significado da expresso de Abby e achou-se um ser indigno.
Abby permitiu-se ficar alegre. Andava ao lado de Shane, que levava Belle empoleirada nos ombros. A menina no se cansava de dar gritinhos de assombro em seu ponto de observao mais alto e abrangente.
Se houvesse ficado com Ty, aquela seria uma cena familiar. Me, pai e filha fazendo passeios. Aquele grupo de trs que ela chegava a invejar, mesmo ser ter iluses a respeito de Ty.
	No sou de natureza monogmica  ele dissera, em uma das vezes que fora descoberto com outra.  E qualquer homem que lhe diga o contrrio estar mentindo.
Precisava afastar-se de Shane. Mas por qu? Afinal, no teriam nenhum relacionamento, fato que ele j deixara bem claro.
Um homem e uma mulher poderiam ser apenas amigos?
Era uma ideia menosprezada por Ty.
Mas o que haveria de errado em aproveitar apenas o momento? Sem estrag-lo analisando o que poderia ou no acontecer pela frente? Apenas usufruir a doura e a descomplicao do que estava acontecendo?
Eles foram at um caf pequeno e simptico perto da praia. Naquela poca do ano ainda no era convidativo sentar-se do lado de fora, pois o vento soprava forte pela enseada. Entraram e pediram hambrgueres para ambos e cachorro-quente para Belle. O que foi um pequeno desastre. Ela tirou a salsicha de dentro, mordeu um pedao e jogou o resto no cho. Comeou a amassar  o po e sem demora o catchup e a mostarda comearam a escorrer pelos dedos e a seguir marcaram-lhe a testa, o rosto e o pescoo. Somente quando conseguiu reduzir o po a uma massa chata e disforme, Belle resolveu dar-lhe uma dentada.
 Hum...
Shane caiu na risada. Era a segunda vez que Abby o via rir. Adorou constatar que ele perdera o ar taciturno que o envelhecia. Ela desejou ver aquele estado de esprito repetir-se mais amide.
Depois do almoo, Shane comprou uma pipa em uma loja prxima  lanchonete e eles se dirigiram  praia para soltar o papagaio.
Correram, riram e divertiram-se com o brinquedo de papel de seda colorido. Abby no se lembrava de haver alguma vez usufrudo de tanta liberdade e de ter sentido uma energia to maravilhosa.
Mais tarde, na volta para casa, Belle adormeceu de cansao nos braos de Shane que passou a mo nos ombros de Abby.
No vestbulo, Shane devolveu a criana  me e fitou-a longamente.
Abby chegou a pensar que seria beijada, mas Shane limitou-se a sorrir com tristeza, suspirar e subir a escada.
CAPITULO VII

Me e filha foram para o jardim mais cedo de que o horrio habitual, como de costume observadas por Shane. Naquele dia, Abby viera com uma p e cavoucava a terra com determinao. Quando no conseguia o ob-jetivo, empurrava o instrumento largo e chato com o p.
Shane no entendia os propsitos de Abby, que era imitada por Belle e sua p de brinquedo. Belle ocupava-se em cavar um buraco, com mais destreza do que a me.
O trabalho prosseguiu por algum tempo. Abby tirou o casaco e limpou o suor da testa. Usava jeans, uma camisa grande sobre uma camiseta e o bon com a aba virada. Parecia um adolescente, tal como o enganara da primeira vez. Shane esperava que ela no se machucasse, tal o empenho que ela usava para remover a terra.
Ele sacudiu a cabea, olhou para o computador, leu as trs sentenas que escrevera pela manh e tornou a olhar pela janela. Abby conseguira soltar um torro grande de relva e lutava para despeda-lo com as mos. Ou ela no deveria estar curvada daquele jeito ou ele  que no deveria simplesmente ficar olhando.
Shane voltou a ateno para a tela. Sem conseguir concentrar-se, digitou mais uma linha do captulo.
Voc  um tolo, foi o que apareceu no monitor.
Ele deletou a frase com um suspiro, salvou as trs linhas escritas a muito custo, desceu a escada e foi para o jardim.
	Precisa de ajuda?  ele ofereceu.
	No  ela recusou, arfante, descansando o brao no topo da p.
	O que est fazendo?
	Quero aumentar este canteiro. Mas h muita grama no caminho.
	Em dez minutos tiro tudo para voc.
	Eu tambm posso faz-lo.
Shane viu que ela marcara o gramado com uma linha curva feita de p branco. Pareceu-lhe farinha. Ela tornou a socar a p.
	Voc vai se machucar  ele a advertiu.
	No, Belle! No coma isso!  Abby largou o instrumento de jardinagem e correu para o lado da filha, que fizera meno de comer uma minhoca.
Shane comeou a cavar e notou que o joelho no o incomodava mais. Em menos fie dez minutos ele tirara o pedao de grama marcado no cho t ; evolveu a terra.
	Direitos iguais  parte  Shane afirmou, entregando-lhe a p , os homens fazem melhor certas coisas.
	No acredito que voc fez isso to depressa  ela declarou, sem entusiasmo.
	Aposto que voc faz muitas coisas melhor do que eu  ele a consolou.
	Por exemplo?
	Depois que voc sai da cozinha, ela cheira bem.
	Isso tambm acontece depois de sua sada.
	Por qu? Voc gosta do cheiro de sardinhas?
Abby corou e virou-se.
	Depois lhe direi. Q&e tal um almoo pelo canteiro?
Isso seria inaceitvel, Shane pensou. Eles no podiam ficar juntos na mesma cozinha. Mas no foi o que ele respondeu.
	Isso seria timo. Quer que eu cave mais um pouco?  Ele arrependeu-se de ter perguntado.
Abby queria metade do jardim desaterrado. Um horta de um lado, algumas ervas medicinais de outro e um passeio sinuoso separando as duas partes.
	Entretanto  ela mostrou-se envergonhada , no quero que faa isso. Na verdade, no. Eu mesma prefiro faz-lo.
	O que acha de eu ir adiantando o servio antes do almoo?
Mais tarde, voc poder terminar.
Abby hesitou.
	Ento est bem. Belle, venha comigo. Vamos entrar e fazer o almoo.
	No, Belle fica com ele!  a menina informou a me, sem tirar os olhos do seu brinquedo.
	Eu no me importo de ficar tomando conta de Belle.
Abby fitou-o boquiaberta e depois estreitou os olhos.
	 mais difcil do que parece. Ter de ficar atento para que ela no leve as coisas  boca.
	Confie em mim. Eu protegi minha ptria de muitos malfeitores. Certamente posso tomar conta de uma garotinha de dois anos.
Abby deu sorriso leve.
	Provavelmente pode mesmo. Eu avisarei quando o almoo estiver pronto.
Shane concordou e voltou ao trabalho, sem perder Belle de vista. Depois de algum tempo, comeou-se a sentir-se como um gravador de fita, de tanto repetir "No coma isso!". No campo da persistncia, duvidou que algum suplantasse a srta. Travessura. Entre as tentativas de comer terra, pedrinhas e minhocas, ela ensaiou uma fuga do jardim por trs vezes.
Belle gargalhava toda vez que ele largava tudo e saa correndo atrs dela.
Finalmente, Shane trouxe-a, junto com a pequena p, para a frente dele.
	No saia daqui  ele ordenou e logo percebeu a inutilidade do comando. A menina estava em constante movimento. Afinal entendeu que Belle queria ateno em tempo integral.
Shane abandonou a jardinagem e sentou-se na grama. Depois de um instante, Belle imitou-o.
Estava ansiosa para mostrar-lhe uma folha e um besouro que encontrara. A folha despedaada a fascinava. Ela balbuciou algumas palavras incompreensveis, mas Shane acenou a concordncia com um gesto de cabea e declarou que estava timo.
Aparentemente satisfeita, Belle voltou ao pedao de terra que lhe fora designado por ele e recomeou a cavar. Acompanhou as ativi-dades, cantando uma das canes infantis aprendidas com a me.
Shane trabalhou por meia hora, desfrutando da companhia da criana e dos tesouros estranhos que ela trazia para aprovao. Uma pedra rosa, um prego, alguns gravetos e uma rodinha enferrujada de rolim. Ele examinou cada item com interesse no fingido. Belle tinha a capacidade de faz-lo ver coisas comuns de uma maneira diferente.
E de redescobrir sensaes antigas. O cheiro de terra revolvida lembrou-o de como gostava de fazer aquele tipo de atividade. Cavar estimulou-lhe os msculos e um suor sadio brotou em sua fronte. Sentiu-se feliz.
Abby abriu a janela emperrada alguns centmetros. Mais uma coisa que precisava de conserto.
	Almoo!  ela chamou.
Shane ps Belle sobre os ombros. A menina insistiu para Shane galopar em volta do jardim trs vezes e depois concordou em entrar.
Abby pegou-a na porta.
 Ser que existe uma criana debaixo de tanta sujeira?  a me perguntou.
	No!  Belle gritou, maravilhada pelo suposto disfarce, mas sem gostar muito de ser levada para tomar banho.
Shane subiu, lavou-se e depois de pensar um pouco, usou o desodorante.
Uma concesso por morar na mesma casa com uma mulher.
Voltou para a cozinha e escutou os protestos enrgicos de Belle, sujeita aos esfreges nada delicados da me.
Sentiu-se cansado, mas no de cavar. Na verdade, cuidar de uma criana exigia muito mais de que beijos e abraos. Imaginou como Abby conseguia fazer isso todos os dias sem ficar estressada.
O cheiro na cozinha era irresistvel. Alho e especiarias fizeram-no salivar.
O jornal estava aberto sobre a mesa. Shane procurou o que poderia ter interessado Abby. Um conjunto de balano em branco e vermelho.
Se o aluguel fosse seu nico rendimento, costurar flores em chapus usados com certezafno lhe daria dinheiro suficiente para comprar tais brinquedos para Belle.
Abby voltou para a cozinha, trazendo Belle de vestido curto e meia-cala de malha, em tons de rosa. Abby tirara o bon e penteara os cabelos. Nos lbios, passara brilho.
Teria se arrumado por causa dele?, Shane perguntou-se, satisfeito.
Abby recendia perfume leve e primaveril. Aquele ambiente agradvel envolveu-o, antes de sua mente advertir-lhe para tomar cuidado.
O almoo estava ainda mais gostoso de que o cheiro, se  que isso seria possvel.
	Nada mais simples  Abby corou, ao ser elogiada.  Salada e spaghetti ai pesto.
	Est brincando? Ento complicado  hambrguer e sardinha.
Abby riu. Parecia adorvel com a camisa larga amarrada na cintura e as mangas enroladas. A camiseta vermelha que usava por baixo conferia-lhe um certo ar ertico dissimulado sob o aspecto maternal.
Belle quis saber por que aqueles "vermes" podiam ser comidos e os da terra no, e Shane encantou-se com a analogia que a garota fazia com as formas.
De repente, olhou o relgio. Faltavam cinco minutos para um compromisso. At h algum tempo, no se lembraria de um encontro marcado to em cima da hora. Antes, porm, no havia nada que lhe desviasse a ateno. Orgulhava-se da coordenao meticulosa de seus horrios.
Um jovem que vira o anncio no mural da igreja marcara uma entrevista e Shane no queria a presena de Abby, pois ambos tinham perspectivas diferentes.
Ele queria assegurar-se de que o interessado poderia ajud-la com as janelas que no abriam ou no servio pesado de jardinagem. E Abby ficaria indignada  simples meno de que precisava de ajuda.
	Obrigado pelo almoo, mas tenho de sair correndo. Lembrei-me de algo que tenho de fazer esta tarde.
Seria desapontamento o que Abby deixava transparecer no olhar?
	Eu  que agradeo por ter feito o meu canteiro.
Shane poderia ser privado da medalha de mrito, se ela soubesse o que ele gostaria de estar fazendo com ela. Algo bem diverso de cavao ou flores.
A despeito do pensamento pecaminoso, Shane sentiu um certo prazer com os acontecimentos. O sonho na igreja tinha sido a semente de uma verdade que precisava -aprender a aceitar. Uma coisa era ser um eremita, outra, ser um idiota.
Abby era me solteira e precisava de apoio. Tomar conta de uma criana e trabalhar era exaustivo. Teria de continuar a ajud-la, at encontrar o inquilino certo. E essa ideia o fez sentir-se muito melhor.
Como estava atrasado, foi de carro at a lanchonete onde havia tomado um lanche com Abby e Belle. Sentou-se, pediu um caf e rememorou as risadas, diante do que Belle fizera com o cachor-ro-quente.
	Sr. McCall?
	Eu mesmo.
	David Hathoway.
O rapaz no parecia ter mais de vinte anos. Era loiro, magro e usava culos de aro redondo, o que lhe conferia um ar compenetrado de bom moo.
Shane aceitou a mo estendida e cumprimentou-o, no sem notar um certo desapontamento.
	Sente-se, David. Aceita um caf?
	No, obrigado. Considero a cafena uma droga.
Perfeito. Nada da maconha para fins medicinais. Shane tomou um gole de seu capuccino carregado de cafena.
	Muito bem, David, voc viu o anncio na igreja?
	Isso mesmo. No momento, estou morando com o sacerdote, por causa da falta de moradias. Estou inscrito em um curso bblico.
Mais do que perfeito. Ele no tocaria em nada pertencente a Abby, nem mesmo nos mantimentos.
	Voc  habilidoso? Uma mulher mora no anda de baixo. O jardim precisa de cuidados e ela quer fazer alguns canteiros. Ela imaginou um tipo de paisagismo que demanda mais msculos do que parecia a princpio.
	No me incomodo em ajudar e at adoraria organizar um jardim. Na fazenda de minha famlia, sempre me ocupava com essas tarefas.
Shane deixou para inform-lo mais tarde de que, convenc-la a aceitar talvez no fosse muito fcil.
	 uma casa antiga. Fusveis queimam com facilidade, as janelas no abrem direito e a fornalha precisa de umas boas pancadas de vez em quando. E voc tambm no deve deix-la ir ao poro.
Shane achou que no dera um tom imperativo suficiente em relao ao ltimo item. Talvez devesse voltar a esse tambm depois. O rapaz sorriu, animado.
	Sou conhecedor da matria. A casa da fazenda tinha mais de cem anos. Minha me chamava-me de sr. Conserta-tudo.
	E como o chama sua namorada?
Teria sido sutil o suficiente?, Shane refletiu. Afinal, entrevistava um provvel inquilino para Abby, no um marido em potencial. Tambm no entendeu por que ficara aliviado, ao ver que o moo era jovem demais para ela. O que lhe importava se David tinha uma garota?
Bem, caso tivesse, o fato ajudaria a manter o mancebo desinteressado do umbigo de Abby. Surpreendeu-se ao pensar em como no lhe agradava a ideia de ter algum espiando o abdmen alvo.
	Bem, senhor, no momento no estou envolvido em nenhum relacionamento. E caso estivesse, minha namorada no entraria dentro de meu apartamento antes de nos casarmos. Eu no me arriscaria a uma tentao como essa.
	Ah, muito bem.
Um rapaz antiquado e decente. No se arriscaria a espiar o que no lhe era devido, a comer o cereal de Belle s escondidas ou ter ideias imprprias. E sempre estaria disposto a colaborar.
	O aluguel ter de ser pago em dia.
	Venho economizando dinheiro h um ano para isso.  David mostrou-se ofendido.  E tenho inteno de procurar um servio de meio-perodo.
Shane convenceu-se de que se tratava de um candidato perfeito.
Mas por que no ficava satisfeito? Seria a sua vontade incon-fessa de no ter de mudar-se? Adorara fazer a pipa voar, olhar minhocas sob uma perspectiva nova e o entrevero no quintal. Isso sem falar na salada e no spaghetti.
	Como eu j lhe expliquei, a sua senhoria mora no andar trreo. Vocs tero o vestbulo e a cozinha de uso comum. Ter de ser cuidadoso com a porta de entrada e com o porto de criana. Assim Belle no poder sair ou subir a escada.
	Belle?
	A filha da proprietria.
	 uma senhora casada?
Shane estreitou os olhos. Seria melhor o rapazote no alimentar ideias romnticas sobre Abby.
	Por que me pergunta isso?
	Eu baseio a minha vida em certos cdigos morais.  Os lbios estremeceram.
	Na verdade, Abby no  casada  Shane afirmou, com ar sombrio.
	Uma viva, espero.
	 engraado esperar-se a viuvez de algum.
	Divorciada?
	No.  Dessa vez, o tom foi ameaador.
E totalmente ignorado pelo rapaz.
	No posso morar na casa de uma mulher com costumes dissolutos.
Shane teve vontade de atirar o moo pela janela.
	 mesmo?  Shane perguntou, com voz glida.
David, preocupado com seus julgamentos virtuosos, continuou sem importar-se com o terreno perigoso no qual estava entrando.
	No aprovo mulheres que tm filhos fora do casamento.
  mesmo?
	.
	No tenho muito conhecimento da matria, mas eu poderia jurar que nesse livro que voc pretende estudar, h uma parte que se refere a atirar a primeira pedra.
Shane levantou-se, deixou um trocado sobre a mesa pelo caf que mal tocara, virou-se e foi embora. Censurou-se por no ter agarrado o garoto pela camisa e t-lo socado contra a parede.
Stacey o teria chamado de brutamontes e Shane reconheceu que um ato o teria rebaixado ao mesmo nvel daquele rapazote metido a censor moral. Entrou no carro e viu que a loja de ferragens e equipamentos ficava do outro lado da rua. Seria a mesma que anunciara o conjunto para balano? No custava perguntar.
Saiu da loja, carregando uma caixa pesada nos ombros.
Pensando melhor, no havia pressa em alugar a parte de cima da casa. Primeiro, ele mesmo teria de encontrar uma acomodao razovel em outro lugar.
O que, na verdade, poderia demorar um pouco.
O que voc est fazendo?  Abby perguntou, ao aproximar-se.
Shane espalhara todas as peas do balano sobre a grama e
trouxera a caixa de ferramentas do poro. Depois de dar uma olhadela nas instrues de montagem, amassou o folheto e esfregou as mos. Qualquer retardado saberia a sequncia das etapas.
	Nada...  ele encaixou uma travessa na moldura em forma de "A".
Abby espiou a caixa.
	Um balano?
	Bonito, no  mesmo?  Ele deteve-se diante de um tra vesso, com a testa franzida.
	Acho que esta parte  atrs.
E no  que ela estava certa?, Shane admitiu, sem vontade de desamassar o papel na frente de Abby.
	Shane, isto  para quem?
	Comprei para Belle  ele comentou, com a maior natura lidade.  Quer fazer o favor de segurar aquela ponta?
Abby quedou-se boquiaberta.
	Shane, no devia ter feito isso.  demais.
	Voc queria um, no queria?
	Nem pensei nisso  ela se espantou.
Shane apertou mais um parafuso. Certamente ela olhara outra coisa no jornal.
	Acha que Belle gostar do brinquedo?
	Ela vai adorar  Abby confessou, relutante.
	timo! Por favor, pegue aquela chave inglesa menor.
Shane sentia-se muito bem, para quem dava a impresso de entrincheirar-se cada vez mais. H muito tempo no experimentava aquela sensao, que a princpio nem reconhecera. Felicidade. Comeou a assobiar.
O conjunto levou um bom tempo para ficar pronto e depois disso, teve de empurrar uma menina esfuziante por meia hora. O que tornou extremamente valioso cada segundo gasto na montagem daquele equipamento enorme.
Shane dormiu muito melhor naquela noite.
Na manh seguinte, notou que o jornal da vspera ainda estava sobre sua mesa. S por curiosidade, abriu na pgina do anncio dos balanos.
Havia propaganda de supermercado, artigos com fotos de aniversariantes quase centenrios e etapas de jogo de bridge. Na pgina oposta, uma reportagem sobre o estado deplorvel da fbrica de enlatados. Alis, esse artigo se repetia h um ms ou dois, sem modificao.
Por fim, notou um anncio de uma comdia que seria apresentada na sexta-feira  noite no teatro local.
Ser que deveria convid-la? A pobrezinha nunca saa de casa.
	Teatro? Sexta-feira?  Abby espetou um alfinete na almofadinha atada ao pulso e tentou disfarar a alegria.  Eu?
	Sim, senhora.
	Ah, eu adoro teatro... mas no posso.
	Por que no?
	Eu no tenho baby-sitter  Abby declarou,  guisa de desculpa, embora o fato fosse verdadeiro.
	Pea quela senhora do vestido. Aposto que ela vai adorar.
	A sra. Pondergrove? No sei no, Shane.  Abby relutava em negar.
	Qual o problema? Voc disse gostar de teatro. Quando foi a ltima vez que saiu e fez um programa para adultos?.
	J faz tempo  ela admitiu, sem querer deix-lo perceber a solido pattica de sua vida, apesar de adorar a filha e no pretender mudar uma vrgula que fosse.
Na verdade, havia um motivo real para no querer sair. A confeco do vestido. A seda, apesar de ser um tecido de difcil manuseio e do fato de Belle atrapalhar na nsia de ajudar, ganhava vida e tomava forma com o passar do dias. O corao de Abby inundava-se de sonhos e ideias romnticas.
Com o homem que morava em cima. Os pensamentos voavam at Shane, quando estava sentada com os metros de seda marfim no colo. A princpio, foram ideias inocentes. Ao ouvi-lo movimentar-se no pavimento superior, tentava imaginar o que estaria fazendo, o que vestia ou qual o seu aspecto no momento.
Estaria com a testa franzida de preocupao? Prenderia a lngua entre os dentes sempre que se concentrasse, como fizera durante a instalao do balano?
Ento seus pensamentos foram um pouco alm, ao lembrar-se de Shane empunhando a p com os msculos ondulados e a fina camada de suor na pele, a maneira como inclinara a cabea para trs e rira, quando Belle comparara o macarro s minhocas.
Enquanto costurava, lembrava-se de que a proximidade dele a fazia tremer de nervosismo. Seus pensamentos corriam longe e ela se lembrava do beijo rpido, como s o experimentasse outra vez.
Trabalhando com o tecido fino, no podia deixar de perguntar-se como seria casar-se com ele. Caminhar pela nave da igreja, enquanto ele a esperava no altar.
Ir para a cama de Shane  noite, sentir-lhe os lbios, o rosto e tudo o mais.
Aquele traje era dotado de uma espcie de encantamento que a fazia crer em acontecimentos extraordinrios destinados a pessoas comuns como ela. E a fazia desejar a mais perigosa das misses.
Tentar novamente. Ter novas esperanas. Acreditar mais uma vez.
	Abby, o que aconteceu?
A verdade a atingiu. Estava apaixonada por Shane, Um grande erro.
Ele agia como um irmo mais velho e benevolente que procurava ajud-la no que fosse necessrio. E ela ansiava por seus beijos, por sentir-lhe a respirao no lbulo da orelha e as mos tocando-lhe na cintura. No por balanos infantis.
	Nada, apenas no poderei ir.  Ela queria fechar a porta, mas ele a impediu com o p.  Estou atrasada com a minha encomenda. Ela mostrou-se mais trabalhosa do que eu poderia supor.
	O vestido de noiva da sra. Pindagrow. Posso v-lo?
	Sra. Pondergrove! No pode. D azar um homem ver um traje de noiva antes de ela us-lo.  Abby adaptou o mito s suas necessidades, mesmo sabendo que a superstio era outra.
O noivo no podia ver a noiva com a vestimenta antes do dia do casamento.
Abby insistia em fechar a porta.
	Por favor  ele pediu.  Venha comigo ao teatro.
Abby fechou os olhos e reconheceu o quanto custara a Shane dizer aquilo e envergonhou-se de si mesma. Proteger-se seria o legado do relacionamento com Ty?
Se realmente gostasse de Shane, no agiria de modo diverso? No se doaria, sem a preocupao de receber? No faria o melhor para satisfaz-lo?
Shane perdera tudo o que mais amava. A esposa. O filho que no chegara a nascer. Os sonhos e as esperanas no futuro. Tudo lhe fora tirado, num piscar de olhos.
A dor o fizera dar as costas ao mundo.
E, naquele momento, ele tentava voltar. Parado  porta de Abby Blakely.
Pensou nos ltimos dias. O almoo. A brincadeira com a pipa. Cavar o jardim. Os risos por causa do spaghetti. O balano para Belle. Shane deixava evidente que procurava uma nova oportunidade, mesmo depois de tudo o que a vida lhe reservara. E talvez nem mesmo soubesse disso.
E Abby entendeu que era uma tentativa de reconstruir o corao, de achar uma luz no fim do tnel. E que Shane no tinha culpa das reaes que provocava, quando ela lhe observava o movimento dos msculos, ouvia-lhe a voz ou o fitava bem dentro dos olhos.
Como tambm no era culpado, se ela se demorava demais para arrumar os cabelos todos os dias e se experimentava dez blusas diferentes, antes de decidir-se por uma que a fizesse parecer mais sexy.
E tambm no podia dizer nada disso para ele.
Medos e sentimentos pessoais  parte, Shane acenava com uma atitude muito sensvel. A oportunidade de ajudar outro ser hu-mano; E ela se negaria a faz-lo, s por ser um assunto que no lhe dizia respeito? Era o que pretendia ensinar  filha?
Ela inspirou fundo.
	Eu irei, com prazer.
O sorriso de Shane deu-lhe a certeza de que agia corretamente.
	Ento, sexta-feira, por volta das sete da noite.
	Est bem  Abby murmurou, pensando no que vestiria.

CAPITULO VIII

	Mas que vestido mais lindo!  a sra. Pondergrove exclamou, com os olhos arregalados por trs dos culos.
	No ser muito audacioso?  Abby quis saber, nervosa.
Ela fizera o traje h algum tempo, talvez em um momento de insensatez. Encantara-se com o modelo, quando o vira na televiso, durante a entrega do Grammy. No que ele fosse indecente. Muito pelo contrrio.
Era o seu corte simples e elegante que o tornava sensual. Duas alas muito finas sustentavam o corpete em estilo imprio. A saia dupla de chiffon fmo e transparente ondulava ao redor das pernas, conforme os movimentos.
O tecido de tom vermelho-escuro, quase vinho, lembrava paixo, sangue e rosas.
Abby nunca o usara. Apenas lhe dera prazer confeccion-lo. Depois achara que no era um traje adequado para qualquer me e o guardara no fundo do armrio.
Por que o escolhera para aquela noite?
Simples. No queria ser tratada como irm de ningum. Se Shane queria bancar o escoteiro, ele que fosse passear com alguma anci pela rua. A sra. Pondergrove, por exemplo, adoraria o convite.
Abby sentia-se inteiramente mulher dentro daquela roupa e no apenas a me preocupada com a comida da filha ou cantarolando melodias infantis.
	No  mesmo ousado?  Abby insistiu.
No caso da hiptese ser verdadeira, o que faria se a mensagem por ela enviada fosse aceita?
	De jeito nenhum  a sra. Pondergrove reagiu.  Eu j tive um semelhante a este. Mas em azul-turquesa. Costumava us-lo para danar com meu Alf.
	O sr. Pondergrove?
	Sim. Foi o melhor homem que Deus ps na face da Terra. Passamos anos maravilhosos juntos. Ele j se foi.
	Sinto muito. Faz tempo?
	H vrios anos. Mas no h por que lamentar. Quando eu analiso os relacionamentos de hoje, sinto-me privilegiada pela felicidade de ter conhecido o amor verdadeiro.  uma alegria que eu desejo para qualquer pessoa. No h riqueza no mundo que valha a amizade e o amor partilhados com o marido.
Ento aquilo existia, Abby refletiu. No era assunto apenas referido em poesias e romances. Tratava-se de uma experincia real. Um amor que, com o passar do tempo, se tornara mais forte, profundo e rico.
	A senhora nunca pensou em casar-se novamente?
	Acho que no. Jordan Hamilton tem opinio diferente, mas  um despropsito pessoas de minha idade pensarem em apaixonar-se.
	No acho isso  Abby contestou, gentil. Gostava da ideia de algum fazer a corte para a sra. Pondergrove.  O sr. Jordan Hamilton  muito atraente e distinto.
	Imagine...  A velha senhora corou.  Vermelho fica muito bem para voc.  a cor da paixo.
	Eu no tenho muita certeza se  o que pretendo sinalizar.
	Minha querida, se no for isso, ento algo est errado. Talvez seja melhor considerar a vida religiosa. J pensou em ser freira?
Abby riu.
	No posso imaginar Belle adaptada em um convento.
	No  somente por que o sr. McCall seja um homem bonito  a sra. Pondergrove continuou.  Ele  decente. No  desses conquistadores baratos que estamos habituadas a ver.
	Como  que a senhora sabe?
	Uma suposio. Eu teria de ser um pouco mais cega do que sou para no observar a qumica existente entre vocs dois, da ltima vez em que estive aqui.
	E d para ver?
	Eu sempre me orgulhei de minha capacidade de enxergar o que escapa aos outros. Jordan no aprova tal atitude. Ele diz que isso  meter-se na vida dos outros.
		E como a senhora sabe que Shane no  um... "conquistador barato"?
	Analisando-o,  claro. Como eu lhe disse, eu vejo "atravs".
Abby teve esperana de obter de uma resposta mais concreta.
	Eu gostaria de ter tanta certeza!
	Pergunte ao seu corao.
	Eu fiz isso uma vez e errei.
	Minha querida, voc no deve ter perguntado ao seu corao. Ele nunca erra.
	Mas foi o que aconteceu.
	Certamente houve algum engano  a sra. Pondergrove teimou.  Por exemplo, talvez seu ego tenha escolhido o homem a quem voc se refere. Quem sabe se ele era muito bonito e desejado por todas as jovens. E se ele a amasse, isso a faria sentir-se mais valorizada. Ser que no foi assim?
	Cus!  Abby reconheceu a verdade.
	Eis ele a! Ol, sr. McCall.
Abby virou-se. Shane estava encostado no batente. Ela no se preocupara em fechar a porta do apartamento, depois da chegada da sra. Pondergrove.
	Ol, sra. Pondergrove. Como vai, Abby?
Abby ficou abismada. No podia ser a mesma pessoa que andava pela casa de camiseta e calo. Ali estava um homem elegante e sofisticado. Usava terno escuro e caro, camisa branca e gravata de seda. Impecvel. Qualquer mulher se sentiria atrada por ele. Exatamente como ela. A pulsao acelerada, a palma das mos suada e uma esperana no fundo do corao.
Mas e qual seria a reao de Shane?
Ele a fitou e arqueou as sobrancelhas.
	Voc est deslumbrante.
Abby conseguira o que queria. Chamar-lhe a ateno. Embora no soubesse bem o que fazer naquelas circunstncias. Como tornar o fato vantajoso para si mesma e fazer com que s ela o interessasse?
Shane apanhou o xale branco que estava sobre uma cadeira e ajeitou-o sobre os ombros de Abby.
	Obrigada  ela agradeceu, formal.  Sra. Pondergrove, se Belle acordar,  s dar-lhe um pouco de gua e ela dormir outra vez.
	No se preocupe.
Shane conduziu Abby para fora, segurando-a pela mo. 
	Voc est maravilhosa.
	Voc tambm.
Shane fitou o salto alto de Abby e abriu a porta de seu carro, um utilitrio esportivo.
	Acho que ser melhor no andarmos esta noite.
Abby quis protestar. A noite estava deliciosa, a brisa marinha convidativa e o crepsculo aumentava. O ideal para um passeio, e ainda mais, de mos dadas.
Mas um dos sapatos a traiu. Ela comeava a pagar um preo elevado para mostrar-se oito centmetros mais alta do que o bom Deus a fizera.
Shane segurou a porta aberta para ela, coisa que Ty nunca fizera. O veculo era alto e Abby encontrou dificuldade para subir. De repente, sentiu-se ridcula, como se fosse uma pessoa diferente de h poucas horas.
	Acho que voc no  a mesma pessoa que tirava minhocas da boca de Belle.
A coincidncia de ideias divertiu-a e Abby descontraiu-se. Shane era capaz de dizer a palavra certa para deix-la mais  vontade.
	Voc tambm no parece o mesmo que cavava a terra. Na verdade, acho que  a primeira vez que o vejo com as pernas cobertas.
	Homens solitrios. Somos famosos.por gostar do que  confortvel e por no fazer concesses.  como os meninos pequenos que choram quando o cobertor predileto, velho e rasgado,  lavado.
Abby achou graa ao imaginar Shane andando de um lado para o outro na lavanderia, enquanto seu short favorito virava dentro da mquina.
Chegaram ao teatro em minutos. Como a maioria dos estabelecimentos de Miracle Harbor, estava situado na rua principal, de frente para o oceano.
Era um edifcio antigo e muito bem reformado. Abby admirou o piso de mrmore, as cortinas fartas de veludo cor de vinho, no mesmo tom do carpete do saguo.
A sociedade local comparecera em quase sua totalidade. O hall estava lotado de pessoas muito bem vestidas.
	Eu no sabia que havia tanta roupa disponvel nesta cidade Shane murmurou, levando-a pelo brao por entre a multido.
	Voc j viu algum por aqui que no usasse jeans?
Abby deu graas por ter se decidido pelo traje que vestira. Havia mulheres lindas envergando vestimentas do mais alto nvel. Receou que seu vestido parecesse ter sido feito por ela.
Uma mulher, usando um preto justo e provocante, aproximou-se. Abby fitou Shane de vis. Ele nem mesmo espiou a mulher bonita que passava perto deles e que o analisou com interesse. Estava com a ateno voltada para a cortina que separava o grande vestbulo do salo principal.
A cena repetiu-se algumas vezes e Shane parecia indiferente aos olhares femininos que nele se detinham e depois mediam sua acompanhante de alto a baixo.
Ty estaria realizado. Flertaria com as estranhas, piscaria para as conhecidas, pararia para conversar e derramar charme, com olhares cpidos para o que lhe chamasse a ateno.
Entraram no ambiente escuro do teatro e Shane continuou srio.
	Desculpe-me  Shane murmurou, depois que se sentaram nos lugares numerados.  Voc deve estar reparando que no gosto de aglomeraes.
Abby emocionou-se de pensar que ele vencera aquela averso para acompanh-la. Mas por que ento a convidara?
	No lhe agrada yW pessoas bem vestidas?
Abby calculou que, na passagem, havia visto pelo menos cinquenta vestidos que gostaria de ter confeccionado. O que a lembrou que, fora a roupa que vestia, no tinha mais nenhum traje de festa no guarda-roupa.
	Bem  ele pareceu surpreso , os homens vestem-se quase todos da mesma maneira. E por que eu iria interessar-me por roupas femininas, se estou com a mulher mais bonita de Miracle Harbor a meu lado? E eu soube disso, antes desta noite. Eu gostaria de conhecer o aspecto da maioria delas, cuidado do jardim.
Depois da afirmao feita de modo trivial, Shane abriu o programa e ps-se a ler.
Abby fitou-o, pasma. Depois do que acabara de dizer, ele lia tranquilamente o folheto.
Se ele realmente fora sincero, por que se mostrava to pouco efusivo com ela?
O que vinha confirmar as suas suspeitas.
Shane no era um homem dado a paixes superficiais. A aparncia, inclusive das mulheres, no lhe importava. Era portador de uma energia moral diferente, lmpida e profunda. Muito mais empolgante.
E era essa fora que o mantinha prisioneiro. Ele acreditava cegamente que decepcionara algum que o amava. Como se houvesse trado a confiana que a esposa depositara nele e no podia perdoar-se por isso.
Abby suspirou, segurou-lhe a mo e olhou para o palco. Ficar de mos dadas pareceu-lhe certo. Assustador, mas belo e simples. Ela morava com Shane McCall.
Ser que ele pensava o mesmo? 
A julgar pelos risos a seu lado, devia tratar-se de uma comdia leve e bem produzida, mas Shane no conseguia concentrar-se no enredo. Agradava-o a maciez da mo de Abby e a maneira como as sombras brincavam com os cabelos loiros e brilhantes. Gostava do que via pelo canto do olho, principalmente depois de ela tirar o xale e deix-lo no colo. Os ombros em arredondados e delicados.
O vestido, de confeco primorosa, era muito mais interessante de que a histria e os personagens.
Droga. Deixara escapar que Abby era uma mulher linda. A mais bonita das que ali estavam. Mesmo sendo a mais pura verdade, gostaria de ter engolido aquelas palavras.
At perceber-lhe o brilho no olhar e entender que vinha ao encontro do que ela mais desejava ouvir.
Por que a falta de confiana em si mesma?
Notara-lhe a ansiedade, toda a vez que alguma mulher atraente passava perto deles. O que teria causado aquela insegurana?
Perdido em meio a seus devaneios, Shane s notou que a pea terminara, pelos aplausos.
	Gostou?  Abby fez a pergunta, enquanto voltava o xale aos ombros e se levantava para sair.
	Claro.  Shane fez votos para que ela no pensasse estar ele se referindo ao decote. Ela o fazia lembrar-se do pervertido dentro de si que no morrera.  E voc?
	Achei muito engraada.
Quando Shane perguntou-lhe qual a parte que mais a agradara, Abby tambm no soube responder e nem mesmo tinha a desculpa de um deslumbrante vestido vermelho que a distrara.
A multido dispersou-se aos poucos e ambos saram.
Que tal comermos alguma coisa?  ele perguntou.  Ou tomarmos um drinque?
Shane ainda segurava na mo de Abby, o que lhes dava prazer.
	No estou com vontade. Shane, veja o reflexo da lua sobre as ondas.
Ele olhou a rua, a faixa larga de areia e o oceano incansvel.
	As ondas parecem coristas  ela comentou , com chapus de espuma e penas.
Sem nada dizer, Shane conduziu-a pela calada. Assim que chegaram  praia, ela tirou os sapatos, enfiou os ps na areia e inclinou a cabea para trs. Shane teve vontade de beijar-lhe o pescoo esguio e todo o resto.
	O que houve com o pai de Belle?  Um policial nunca deixava de ser profissional. Shane queria descobrir o mistrio sobre a insegurana de Abby.
Ela soltou-se da mo dele, enrolou-se no xale e deu alguns passos  frente. Shane acompanhou-a e tambm tirou os sapatos, achando que a pergunta fora pessoal demais.
Ele nunca se interessou pela filha. Para ser mais exata, acho que nem por mim. Acredito que ele gostava de todas as mulheres.	
Aquilo explicava tudo!
	Um lobo sem-vergonha  Shane censurou o desconhecido.
	Parece que h muitos deles nas florestas.
	 verdade.
	E tambm, os Chapeuzinhos Vermelhos.
	Acho que elas deveriam preocupar-se com os lobos. Voc est de vestido vermelho esta noite.
	Mas voc no  um deles, , Shane McCall?
	Pareo ser?
Abby fitou-o, com olhos grandes e iluminados pelo luar. Depois voltou a acompanhar o movimento das ondas que rebentavam na praia.
Shane gostaria de ser tudo o que ela quisesse.
	No sou do tipo que voc est insinuando.
	Nem acredito seja.
	E o que faria se eu fosse um lobo?  ele tentou pilheriar, para afastar-se do perigo para o qual caminhavam.
	Mas no . Acho que voc  um tipo especial de homem que merece a confiana de uma mulher.
De repente, a verdade veio  tona e apertou a garganta de Shane. Aquilo apagaria o brilho do olhar de Abby e lhe destruiria as iluses. Bem, e por que no falar?
	Acho que est fazendo juzo errado a meu respeito.
	Pois no creio nisso  ela teimou.
Shane no teve certeza se desejava contar-lhe a verdade para acabar com as iluses de sua linda cabea loira ou se para aplacar a prpria conscincia.
	Lembra-se de que lhe contei sobre a morte de minha mulher?
	Sim.
	Naquele dia era a minha folga, mas fui chamado ao trabalho.
Ela estava nervosa e no queria que eu fosse. Ficava apavorada de pensar no que poderia acontecer-me. Temia que eu ficasse retido por algum imprevisto e que o beb nascesse sem eu estar por perto. Ns havamos feito o pr-natal juntos.
Shane esboou um sorriso triste.
	Voc nem imagina o quanto eu detestava aquelas aulas. De qualquer modo, eu no levei a srio seus receios. Disse-lhe que voltaria imediatamente, caso fosse necessrio. O beb nasceria dali a um ms e achei que aquele pavor todo fosse apenas tolice.
Abby estendeu o xale na areia, sentou-se e convidou-o a fazer o mesmo. Shane hesitou e depois imitou-a. Os ombros de ambos se tocaram.
	Se eu estivesse l, se houvesse ficado em casa, se ao menos no a houvesse achado uma tola! Talvez ela tivesse uma espcie de premonio e tentasse avisar-me. E eu no a escutei e ela caiu da escada.
Abby encostou a cabea no ombro de Shane e ele a sentiu tremer. Olhou-a e viu as lgrimas prateadas que deslizavam pela face.
	No adiantar nada eu dizer que no foi culpa sua  ela sussurrou.
	No. Eu tenho remorso at do quanto eu odiava o curso pr-natal. Se as pessoas soubessem o que as espera...
	Ah, Shane...  Abby enxugou os olhos com uma das pontas do xale.
Uma vez idiota, sempre idiota!, ele se recriminou. Estava na praia, ao lado de uma bela mulher e a fazia chorar. E a sua inteno era faz-la rir e aliviar-lhe um pouco a carga.
	Shane, preciso dizer-lhe o que eu acho  ela declarou, com voz suave, tendo o marulhar das ondas como pano de fundo.  Ningum  perfeito, a ponto de no cometer erros. E eu vejo na minha frente um homem forte o suficiente para perdoar a si mesmo. Tenho certeza disso.
Abby chorava por ele. Era capaz de condoer-se com o sofrimento dele.
	No chore.
	Isso  to triste, Shane. Voc se sentiria da mesma maneira se ela fosse atropelada ou se tivesse morrido no parto, no ?
	Suponho que sim.
	Por isso  que escolheu a carreira de policial. Voc quer proteger, controlar, administrar tudo.
Shane sentiu-se desconfortvel ao perceber que ela o desnudava.
	Shane, existem fatos sobre os quais no os seres humanos no podem interferir, por mais que se esforcem para isso. A vida e a morte so duas alternativas independentes de nossa vontade.
	Talvez voc tenha razo.
Ele relutava em admitir a verdade, mesmo sabendo que as feridas no comeariam a cicatrizar-se, enquanto no parasse de culpar a si mesmo.
	Shane?
	Hum?
	Ser que ela gostarra de v-lo martirizar-se tanto?
	De modo algum. Ficaria furiosa comigo.
	Ento a nica coisa que lhe compete fazer  honrar sua memria e ser o homem que ela gostaria que voc fosse. Se ela o amava de verdade, haveria de querer v-lo liberto. Feliz. E pronto para receber o que a vida tem para oferecer-lhe.
	E agora estou acorrentado ao cinismo, infeliz e fechado em mim mesmo.
Abby no tinha mais nada para dizer.
Shane acabava de reconhecer a exatido das palavras dela e a verdade sobre si mesmo.
O que o tornava merecedor de duas mulheres que o desvendavam com tanta clareza?
O que teria feito para merecer uma segunda chance? De sentir outra vez a alegria de ansiar por uma mulher?
Shane acariciou-lhe levemente os cabelos perfumados e sedosos.
Abby ergueu a cabea e ele beijou-a. Saboreou-lhe os lbios. A doura e a inocncia que neles encontrou, a despeito de ela ter gerado uma criana, foi uma experincia indescritvel.
O bater de seu corao suplantou o rudo das ondas e ele sentiu um trao salgado das lgrimas que escorriam.
Passou os dedos na suavidade da curvatura dos ombros e do pescoo.
Shane teve vontade de deit-la na areia e perder completamente o controle que norteava sua vida.
Queria ser livre, feliz e pronto para receber o que Deus lhe oferecia.
Acima de tudo, desejava fazer amor com Abby.
Mas no na areia e em um lugar pblico.
Em seu quarto, onde poderia tirar-lhe o vestido e jog-lo no cho. Para olh-la, sentir-lhe o sabor e deit-la de costas na cama.
 Vamos para casa  ele resmungou.
Abby levantou-se, deu-lhe a mo e ambos caminharam pela praia em direo a um futuro que tinha tudo para ser melhor.
Um futuro onde brilhavam esperanas, como estrelas no cu.

CAPTULO IX

A volta para casa deu  Shane a oportunidade de refletir, de reagir contra a proximidade inebriante de Abby e de aliviar a tontura que sentira ao tocar-lhe a pele com os lbios.
A realidade era um fato incontestvel.
Teria arrumado a cama pela manh? Ou teria deixado as roupas sujas no cho? No se lembrava de onde havia deixado a ltima edio da Playboy que um amigo bem-intencionado lhe mandara. No tinha muita pacincia com leituras desse tipo e no queria que Abby, ao encontrar a revista, pensasse que ele era um pervertido.
Como esquivar-se da srsf. Pondergrove? E como se sentiria a respeito? Atrair Abby para seu quarto  maneira dos colegiais nos dormitrios, esquecido de que era um homem maduro e respeitado?
Perguntou-se ainda se era mesmo aquilo que desejava de corao. Abby no era o tipo de mulher para uma aventura passageira. Ela j fora vtima de tal comportamento. Se tinha vontade de estrangular o pai de Belle, como agiria da mesma forma? Como racionalizar o que pretendia fazer naquela noite?
A voz da conscincia perguntou-lhe o que planejava fazer no dia seguinte.
Mudar-se para o apartamento dela? Comprar-lhe um anel de noivado?
Shane parou o carro, desligou o motor, mexeu-se no assento e fitou-a.
Abby. Tudo o mais era relativo. Ela no se importaria se a cama estivesse desarrumada. Mandariam a sra. Pondergrove para casa. Pediu a Deus que no tivesse de lev-la.
E o dia seguinte? No encontrou resposta.
Ele saiu do carro, deu a volta pela frente e abriu a porta do passageiro.
Abby saiu, direto para os braos de Shane.
Eles se beijaram com a nsia de dois famintos diante de um banquete. Depois foram at a varanda e ficaram ali parados, no escuro, enquanto Shane a beijava o pescoo e o colo. Abby, arfante, arrepiava-se com os beijos sempre mais audaciosos. O fogo ameaava consumi-los, como j acontecera com a frgil racionalidade do casal.
De repente a luz foi acesa e iluminou-os. A porta foi aberta com uma energia maior do que a esperada de uma velha senhora. Mas no foi a sra. Pondergrove que apareceu e riu, matreira.
	Ol, querida. Estou em casa.
Meu Deus! Era Abby. Um pouco diferente, na verdade. Os cabelos eram longos, a maquilagem sofisticada. Nos olhos, um certo brilho travesso jamais visto no olhar de Abby. E roupas que ela jamais usaria. Uma vestido de seda branca, colado no corpo e de preo elevado. Jias verdadeiras nos dedos e nas orelhas.
Abby estacou, espantada e Shane afastou-se.
	Brittany...
Em vo, Abby procurou mostrar entusiasmo. Fitou Shane com pesar, abriu a porta de tela que a separava da irm e abraou-a com fora.
	Brittany, estou to feliz que esteja aqui.
Ele gostaria de dizer o mesmo, mas foi impossvel.
	Bem  Brittany correspondeu ao abrao, sem deixar de fitar Shane por sobre o ombro da irm.  Parece que cheguei em hora imprpria, no  mesmo?
	Que bobagem. Brittany, este  Shane McCall.
	E pensar que lhe mandei um livro para facilitar a caa aos homens! Menina, por que no me disse que no precisava de qualquer ajuda?
Abby implorou silncio com o olhar, mas a outra ignorou o pedido.
	Por isso aquele maravilhoso vestido de noiva?
	No!  Abby gemeu.
	Combina bem com este pedao de homem. Ento  ele? Muito prazer.
Abby fitava os ps, de ombros cados.
Shane teve vontade de bater em Brittany por ser to insensvel.
Esse  o camarada que vai ser seu marido para que voc possa ficar com esta casa adorvel?
Aquelas palavras atingiram-no como um soco no queixo.
	Brittany, por favor  Abby pediu, com voz quase inaudvel.
	Oh, Senhor, ele no sabe?
Seguiu-se um silncio mortal.
	Saber o qu?  Shane perguntou.
	Nada  Brittany apressou-se em responder.
	Abby?  ele insistiu.
Shane desconfiou que ela estava rezando para que um buraco se abrisse, para ento esconder-se, sem nenhuma preocupao com o exrcito de aranhas porventura l existente. Assim, mesmo ergueu o queixo e encarou-o.
	Recebi esta casa como uma doao e existem condies para que eu possa ficar definitivamente com ela.
Qual o papel de um homem bem-comportado naquela altura dos acontecimentos? A medalha de honra que ela insinuara ser ele merecedor por ter sido o sr. Prestativo nos ltimos dias comeou a incomod-lo.
	Quais so essas condies?
	Eu jamais me casaria apenas para ficar com a casa  Abby declarou.  Jamais.
	Algum lhe deixou esta casa com a exigncia de que se casasse?
Abby anuiu, envergonhada, sem conseguir fit-lo.
	Quem foi que fez isso?  Shane parecia furioso.
	Eu no sei. Um estranho.
	Uma exigncia absurda, se levarmos em conta que voc tem uma filha para cuidar.
Shane teve a intuio de que Abby s aceitara a oferta por no encontrar outra alternativa. Belle era sua prioridade e seria beneficiada com a casa. Admirou-a por essa atitude.
Mas... ser que todo o interesse demonstrado fora uma farsa? Bom Deus, se os beijos houvessem sido enganosos, ento ele nunca mais acreditaria em uma mulher ou em si mesmo.
A sra. Pondergrove chegara no vestbulo e fitava todos, ansiosa.
	O que  absurdo?  ela perguntou para Shane.
	Algum deixou a casa para Abby, com a condio de que ela teria de casar-se.
	Santo Deus!  a sra. Pondergrove exclamou, chocada. Levou o punho fechado  boca e fitou-os com preocupao.  Ser que essa pessoa no estava bem-intencionada?
	Duvido. Condicionar um casamento a um bem material  uma atitude mercenria.  Shane pensou que iria explodir, ainda mais com trs pares de olhos femininos fixos em seu rosto.  Sra. Pondergrove, vou lev-la para casa.
	Muito obrigada,  muita bondade sua, mas eu no me importo de andar.
	Trate de entrar no carro.
Shane no podia culp-la por no querer sua companhia. Seu tom de voz seria muito mais apropriado para um traficante do que para uma senhora idosa. Mas o que era tudo aquilo, seno uma batida policial onde se acabava descobrindo as reais motivaes da vida? A infratora de vermelho, por exemplo, planejava colocar-lhe um anel no dedo para ficar com uma casa. E a sra. Pondergrove, que nada tinha a ver com aquilo, tremia, nervosa.
	Por favor, permita que eu a leve para casa  Shane corrigiu-se.  Fui policial durante muitos anos e sei que as mulheres so presas fceis  noite.
	Est bem  a velha senhora concordou, tmida.  Deixe-me pegar o casaco. Querida, onde voc o guardou?
Abby trouxe o agasalho e Shane ajudou a sra. Pondergrove a vesti-lo.
Dentro do utilitrio, Shane refletiu .que, se no estivesse com tanta raiva, at acharia graa no final de noite to diferente do que planejara.
	Por favor, no fique bravo com Abby  a sra. Pondergrove pediu.  Ela no  culpada das condies impostas.
	Ela poderia ter-me contado.
	Tenho a impresso de que Abby se envergonha um pouco por isso.
Uma mulher com um vestido daqueles devia estar mais propensa a colocar uma armadilha de que propriamente envergonhar-se.
	Ela  muito ingnua  ele afirmou.  Quem lhe deixou a casa provavelmente vir bater  sua porta, a cortejar por algum tempo, insinuar o assunto e a questo ser resolvida.
Shane percebeu que caa em contradio. Ao mesmo tempo que a taxava de conivente, rotulava-a como uma pessoa sem malcia. Nunca se imaginara uma pessoa confusa.
	No acredito nessa hiptese  a sra. Pondergrove afirmou.
O tom resoluto fez com que Shane a fitasse, com olhar semi-cerrado. O que ela sabia sobre o caso?
A velha senhora procurava alguma coisa dentro da bolsa com expresso inocente e tirou um pacote aberto de balas de goma.
	Quer?  ela perguntou, animada.
	No.
	Vire  esquerda, querido. Ali est minha casa.
Shane estacionou em frente a uma moradia em estilo vitoriano, pequena, bem cuidada e ajudou-a a descer do veculo. Na verdade, teve de carreg-la. O que permitiu ver-lhe a fisionomia sob a luz do poste.
Culpada.
E por qu?
Bem, essa era uma de suas especialidades. Descobrir coisas que as pessoas no queriam revelar. Estava escrevendo um captulo inteiro sobre investigaes. E pretendia chegar ao mago daquele caso. Comearia, no dia seguinte, a fazer perguntas contundentes sobre o assunto.
Para o bem de Abby.
Mesmo se ela no o merecesse.
Voltou para casa menos resoluto e bastante melanclico. Por algumas horas ficara livre da tristeza, que ento voltava com toda a fora.
Entrou no hall e viu a porta quase fechada do apartamento de Abby. Tentou passar, sem fazer rudo. Ver Abby poderia minar seu raciocnio e seu poder investigante.
	Para onde vai?  Brit perguntou, surgindo na entrada.
	Eu moro aqui  Shane afirmou, com frieza.
	Aqui? Com minha irm?
	Sou inquilino dela. Ocupo o andar de cima.
	Inquilino dela...  Brt repetiu, deu uma risada e chamou a irm por sobre o ombro.  Abby, eu recebi uma droga de padaria como presente e voc, esta casa com "ele" dentro? Quero saber onde posso registrar minha queixa!
Brit fechou a porta da sute de Abby.
Shane subiu a escada devagar, sentindo as pernas pesadas. Entrou em seu quarto e no encontrou refgio na ordem que lhe era familiar. A cama estava feita, a roupa suja no cesto e a revista, guardada. Fechou a porta e sentou-se no cho.
"Vamos l, McCall", ele falou consigo mesmo. "Por que a surpresa? No viu aquele livro no carro dia em que Abby chegou? J sabia que ela procurava algum."
A grande surpresa fora entender que a jovem me estava na mira de um marido de maneira fria e calculista.
Que ironia! Shane McCall, o grande duro, fora tristemente enganado.
Fechou os olhos, apoiou a cabea nas mos e tentou no pensar em nada.
Era uma coisa que ele dominava.
	Meu Deus!  Brittany exclamou, encostada na porta.  Que homem! Ele  um arraso! Estou morta de cime.
	Pois acredite que no h motivos para tanto. Somos apenas amigos.  Tinham sido, Abby pensou, desanimada.  Ser que podemos mudar de assunto?
	Pois no. Adorei seu vestido. Esse tom de vermelho  muito sensual. Onde o comprou? E muito bonito.
	Eu o fiz  Abby respondeu, sem emoo.
Queria demais alegrar-se com a presena da irm, mas s conseguia pensar na expresso de Shane, quando descobrira a verdade.
	Gostaria que me fizesse um em tom pssego? Fico maravilhosa com roupas nesse tom.  Brit riu.  Claro, o que fica bem para mim, fica bem para voc.
Abby deu um sorriso leve.
	Minha sobrinha  uma graa. Parece conhecer-me. Aquela senhora achou que eu no deveria acord-la, mas eu queria conhecer a menina. Como  mesmo o nome dela? Sra. Po-de-grano?
	Pondergrove  Abby corrigiu-a, pouco entusiasmada.
	Ah, sim. Vai ver que me enganei por causa da padaria que me coube. No  exatamente meu ramo, mas espere at eu lhe contar meus planos. Estou ansiosa para assumir o comando.
	Mas que timo  Abby respondeu, fingindo entusiasmo.
Brittany encarou-a e bateu na prpria testa com a palma da mo.
	Oh, Deus! Eu deveria ter fechado minha boca, certo? Desculpe, Abby. Eu estava apenas tentando causar boa impresso. Ele  to bem-apessoado, que nem refleti nas bobagens que falei e no quanto poderia mago-la. Perdoe-me.
	No se preocupe, no foi nada. No amos mudar de assunto?
	Sou uma negao em matria de sensibilidade, Abby. Meus pais por pouco no me expulsaram de casa no ano passado e disseram que eu no passava de uma jovem rica e mimada, que no conhecia a vida e que estava na hora de aprender. Sob o tom alegre de Brit, Abby detectou a mgoa.
	E por que fizeram isso?  Abby tentou afastar a prpria perturbao e o sofrimento.
	Foi depois que arrebentei meu carro. Eu diria que eles exageraram um pouco, mesmo tendo sido o segundo veculo que destru.
	E como aconteceu?
	Entrei muito rpido em uma curva. Adoro velocidade. Voc no?
	No  Abby confessou.
	Eu no diria tal coisa, ao ver o progresso que fez com o bonito de Miracle Harbor. H quanto tempo o conhece?
	H pouco  Abby respondeu, mas as palavras soaram falsas. Parecia conhecer Shane McCall h sculos.  Voc estava contando sobre o carro.
	Ah, sim. Eu acabei com ele. O segundo. Um Corvette vermelho, quase da cor do seu vestido. Mame e papai tiveram um acesso. Depois culparam-se por terem me dado tantas coisas. Afirmaram que as facilidades estavam cortadas e que eu teria de me virar sozinha. Assim, em m estalar de dedos.
Mais uma vez, Abby notou a pessoa sensvel escondida debaixo da capa de banalidade.
	Eu j estava ficando desesperada. Vendi algumas jias para equilibrar o oramento. Eu me candidatei a todos os tipos de emprego, mas nunca fui chamada para uma entrevista.
Abby percebeu angstia e perplexidade naquelas palavras.
	Lembra-se de quando recebemos a doao? O advogado disse que se tratavam das coisas que mais precisvamos? Bem, acho que no meu caso, era um trabalho. E consegui um. E, na verdade Abby, estou agradecida. Ser que d para voc imaginar sua irm Brit fazendo doces de geladeira?
Abby teve de sorrir, apesar da melancolia. No podia visualizar a irm metida em uma cozinha.
	Bem, j falei demais. Agora, quero saber de voc. Comecemos com a minha adorvel sobrinha. Mas antes, deixe-me fazer-lhe uma pergunta. Descobriu alguma coisa por que fomos separadas?
	No. Perguntei  minha me adotiva vrias vezes. Se ela conhece os motivos, nada me contou.
	Ela tem de saber alguma coisa. Na certa no a encontrou debaixo de um p de repolho!
	Judy me disse que foi tia Ella quem tomou as providncias Ento pergunte  sua tia!
	Ela morreu h treze anos.
	Ah, desculpe...
	Minha me era enfermeira em um hospital de Minnesota. Contou-me que eu estava l e que encantou-se comigo. Achou que eu precisava de um lar. Ela sempre quis um beb. Mas eu no era uma recm-nascida. Eu estava com trs anos, quando resolveu adotar-me.
	Meus pais tambm disseram que eu estava com quase trs, quando me adotaram. E como  que voc foi parar no hospital?
	No tenho a menor ideia. Fiquei admirada quando Corrine disse que nosso pais morreram em um acidente de carro. Talvez eu estivesse com eles. Como foi com voc?
	 medonho dizer uma coisa dessas, mas acredito que meus pais me compraram.
	O qu?
	No estou brincando. Mercado negro de crianas. Eles no gostavam de falar no assunto, por isso a suspeita. Sei que eles queriam demais um filho e no eram do tipo que esperava pacientemente por algo que o dinheiro pudesse comprar. No quero dizer que eles sejam pessoas ms. Longe-disso. Mas eles tm conscincia de que dinheiro  poder e no tm medo de us-lo.
	Quaisquer que tenham sido os motivos por que fomos separadas, fico feliz por estarmos reunidas  Abby declarou.  No posso acreditar que o responsvel por nossa aproximao tenha motivos escusos.
	Bem, eu sou um preo duro para qualquer um que tenha "motivos escusos". No sei quanto a voc. Santo Deus, voc  uma doura.  Brit riu.  Eu sou a selvagem. Como ser Corrine?
	Falei algumas vezes com ela por telefone. Ela parece...
	Reticente?  Brittany sugeriu.
	Isso mesmo  Abby no acrescentou "ou amedrontada".
	Corrine me disse que estava queimando o livro que mandei para ela. Nem mesmo quis do-lo a uma biblioteca. Afirmou que seria como espalhar veneno na gua. Acha que foi forado demais?
Abby deu boas risadas e achou aquilo surpreendente, pois h quinze minutos poderia ter jurado que nunca mais riria.
	Na verdade, no. Ela comentou quando chegaria?
	Corrine explicou que tinha compromissos inadiveis. Est escrevendo e ilustrando um livro. No  adorvel?
	Mal posso esperar para ver o livro  Abby declarou.  Ela disse que vai me mandar um exemplar.
Espere. Tive uma ideia maravilhosa!  Brit afirmou.
Abby concluiu que deveria acostumar-se  essas mudanas rpidas de assunto.
	Posso experimentar?  Brit pediu, com os olhos no traje de noiva no manequim a um canto.
O trabalho de costura j estava pronto. H dois dias, Abby comeara a difcil tarefa de bordar o corpete. Mesmo assim, nao queria que a irm o experimentasse. Mas por que no? Afinal, isso lhe daria a oportunidade de provar a roupa em algum e analisar os defeitos. Apesar de ter usado as prprias medidas, no tivera coragem de experiment-lo.
	Posso? Ah, Abby,  to lindo...
Sem o menor constrangimento, Brit ficou apenas com a roupa de baixo. Abby admirou-se. Jamais tivera roupa ntima to sexy. Sumria e de renda.
Abby ajudou Brit a vestir o traje de noiva pela cabea. Como ainda no havia pregado osfootes, Abby usou alfinetes para fechar as aberturas.
Serviu perfeitamente. Como se fosse feito para Brit.
	Como estou?  Brit perguntou, com os olhos brilhantes.
Abby no quis opinar e trouxe o espelho comprido para a frente da irm.
Brit fitou o prprio reflexo e ficou sria.
	No  engraado? Adorei este vestido. Ele parece um sonho. Mas no combina comigo. Suave demais. Experimente voc.
	Oh, no! Abby negou-se, com o rosto vermelho.
	Vamos l. Entre na brincadeira.  o tipo de coisa que faramos no sto depois de remexer nos bas, se houvssemos crescido juntas. No seja teimosa.
	Teimosa, eu?
	Sim, senhora. Experimente.
De repente, Abby viu-se com o vestido nas mos. Por no ser desinibida como a irm da Califrnia, entrou no banheiro para trocar-se.
Sentiu como se estivesse vestindo uma segunda pele. No ousou olhar para si mesma e Brit a chamou do outro lado da porta. Deu um suspiro e saiu.
	Meu Deus! Minha irm parece um anjo. Acho que vou chorar. Nunca vi coisa to linda em toda minha vida  Brit puxou-a e levou-a at o espelho.
	Olhe, sua tonta.
Abby deu uma espiada e depois arregalou os olhos.
O vestido transcendia s suas expectativas. Ajustava-se perfeitamente e o corte elegante a fazia parecer uma princesa. No se tratava apenas de uma roupa. Era um sonho que virava realidade. Um encantamento...
O olhar de Abby trazia o brilho profundo e satisfeito de uma mulher apaixonada.
Mas aquele sonho precisava de duas pessoas.
A ltima impresso que tivera de Shane antes de ele sair no lhe permitia pensar em um futuro para ambos, onde tivesse de usar um vestido de noiva.
Abby virou-se e correu para o banheiro, antes de comear a chorar. Aquele traje fazia com que se sentisse bem, feminina, cheia de esperanas e sonhos.
A coliso da fantasia com a realidade era dolorosa. Terrvel.
Abby saiu do banheiro, sem vestgios de lgrimas.
	Veja se gosta da minha ideia maravilhosa, antes que eu me afaste mais uma vez dos objetivos  Brit pilheriou.  Empreste-me um de seu pijamas. Deixei minha bagagem no hotel. Faremos um festa particular em trajes de dormir. Falaremos a noite inteira.
Como fazem duas irms. Estou curiosa para saber todas as particularidades sobre voc.
Abby achava prefervel passar a noite pensando no que teria acontecido, se Brit no houvesse chegado.
Brit franziu o nariz ao ver o macaco de flanela abotoado at em cima.
	Menina, voc nunca ouviu falar na palavra "sexy"?
	Eu sou de Chicago. L faz frio  noite. No d para dormir de baby-doll de renda.
	Ser que nunca passou a noite fora em Chicago?  Brit provocou-a, enquanto tirava as roupas mais uma vez e vestia o pijama.
Dali a minutos as duas estavam sentadas na cama de Abby, conversando, murmurando e rindo.
 No posso acreditar que voc tambm tenha pavor de aranhas  Brit comentou.  Incrvel, no ?
	E isso acontece desde que me conheo por gente.
	Comigo tambm. Desmaiei na formatura secundrio, ao ver uma aranha passeando no colarinho do colega na minha frente. Claro que creditei a culpa ao calor. Imagine uma jovem como eu, conhecida pelo esprito afoito, ser medo de uma coisa to idiota.
	Ser que aconteceu algum incidente conosco, antes de sermos separadas? Ser que Corrie tambm tem o mesmo medo?
	Vamos ligar para ela!
	No, Brit. J  tarde.
	Ah, ela no vai se importar.
	Falaremos com ela amanh.
	Est bem, mas eu preferia que fosse esta noite.
Abby compreendeu que a irm era uma pessoa que jamais considerara a hiptese de priorizar as necessidades de outrem antes das prprias.
Apesar disso, Brittany era adorvel. Espontnea. Vivaz. Engraada. Abby teve a impresso de que a conhecia desde que nascera. E que a amaria para sempre.
Mas Abby no sabia que o registro sobre sua cama no era de um cano de gua quente. H muitos anos, um buraco tinha sido cortado no piso superior para permitir que o calor fosse at o primeiro pavimento, sempre gelado. O registro tinha uma utilidade apenas "cosmtica".
Shane McCall, deitado na cama e sem conseguir dormir, ouvira cada palavra de Abby sobre a histria de sua vida.
CAPTULO X

Depois de algum tempo, o som das vozes de Abby e Brittany que subiam pelo registro debaixo da cama de Shane ficaram mais baixas e cessaram.
Sentiu-se culpado por ter ficado  escuta, mas o que poderia ter feito? Bater no cho com o p?
Seria pecado ficar deitado na prpria cama?
O problema era no conseguir livrar-se da palavra "culpa" que o atormentava desde a morte de Stacey e da ideia que se no houvesse ido trabalhar, poderia t-la socorrido.
Lembrou-se da voz aveludada de Abby na praia, ao descobrir a verdade. Ele sentiria que falhara, independente da forma como a esposa houvesse morrido. E mais. Abandonando uma vida normal, ele no s no honrava Stacey, como tambm o amor que haviam celebrado juntos. S voltaria a respeitar o amor havido entre eles, se permitisse vir  tona o homem que Stacey havia ajudado a moldar. O homem que, entre outras coisas, sempre procurava a verdade e agia com completa retido de carter.
Na solido escura de seu quarto, Shane reconhecia a triste realidade da vida que estava levando, destituda de emoes.
E Abby mudara tudo. Trouxera o sol para dentro da caverna onde ele se escondera.
Eram trs horas da manh. Ouvindo a sereia do nevoeiro, Shane entendeu o que acontecera aps encontrar Abby na soleira de sua porta, em uma noite nevoenta como aquela.
Oferecera-lhe abrigo para passar a noite, insistira para consertar seu carro, cavar o jardim e encontrar um inquilino.
Procurara dar-lhe assistncia.
Mas no era Abby quem precisava de tudo aquilo.
Ele, Shane McCall,  quem tinha necessidade de preocupar-se com Abby e Belle, para sentir-se vivo novamente.
Com todo seu corao e sua alma, ele queria ampar-la, proteg-la e estar sempre a seu lado.
Havia uma palavra que explicava toda aquela nsia, mas Shane no a admitia.
E nem iria pronunci-la.
Jamais.
Na manh seguinte, Shane acordou irritado, depois de uma noite maldormida. Olhou o relgio de cabeceira. De acordo com os horrios que ele mesmo estabelecera e que deveriam ser rees-truturados, contava apenas com dez minutos antes de Abby ter direito ao uso da cozinha.
Vestiu rapidamente um short e uma camiseta, e desceu.
Depois de um rpido caf, sairia para correr. At ficar exausto e esquecer o que o afligia. Quando voltasse, iniciaria os interrogatrios.
No teve muita certeza quais seria suas reaes, se descobrisse motivos escusos na pessoa que doara a casa para Abby. Nem saberia o que fazer, mesmo que no houvesse segundas intenes no ato.
Era um caso intrigante/Brittany mencionara uma padaria. Seria tambm condicionada a um casamento? E ela seria, pela aparncia, a pessoa menos indicada para administrar uma panificadora. Se casar-se tambm fosse uma condio sine qua non para Brittany, significava que o alvo no era Abby.
A seu ver, Brittany se adaptaria melhor em uma butique, loja de cosmticos ou salo de manicure. Suas unhas era longas e pintadas com esmalte vermelho.
Parou na porta da cozinha. Abby estava l, mesmo sabendo que no era seu horrio. De costas para ele, usava aquele bon infernal virado para trs, jeans folgado e uma blusa curta que deixava entrever a cintura estreita.
Ser que Abby pretendia faz-lo perder o controle?
Se fosse essa a inteno, ela conseguira.
A palavra que Shane vinha tentando evitar com fora herclea instalou-se na sua mente com letras em non de trs metros de altura.
Amor.
Ele a amava.
Mas que droga!, Shane lamentou-se. Mesmo se Abby houvesse preparado uma armadilha, no teria feito a mnima diferena.
Precisava sair dali. Poderia tomar um caf na lanchonete. Aproveitaria para comprar um jornal. Alugaria um quarto em um motel. Tinha de deixar aquela casa.
Entretanto, no foi capaz de obedecer  voz da razo.
Aproximou-se sem fazer rudo, agarrou-a pelos ombros e virou-a.
Ele nem mesmo preocupou-se em ver-lhe a expresso.
Beijou-a longa e profundamente. Foi um "beijo carregado de frustraes. Para humilhar e punir, mais do que qualquer outra coisa.
Punir Abby por sua prpria fraqueza e por faz-lo ter esperanas outra vez.
Mas o que havia de errado?
Tudo!
No sentiu a doura arrebatadora de Abby, que o lembrara uma campina forrada de botes-de-ouro.
Aquele beijo teve um sabor de fraude.
Era como se beijasse um tigre. Sentiu as unhas que se cravavam em seus bceps.
No era Abby!
Tarde demais.
Shane ouviu o grito de consternao s suas costas, desvencilhou-se dos braos que o agarravam e virou-se.
Abby estava em p, com o punho tampando a boca e os olhos marejados. Um segundo depois, ela sumiu.
Shane praguejou e fitou Brittany.
	Como ousa fazer isso?
	Ousar, eu? Quem foi que comeou isso?
	Mas tambm voc no terminou! Pensei que fosse Abby.
	E eu poderia adivinhar?
	Voc est usando as roupas de sua irm!
	As minhas esto no hotel.
	E por que eu a beijaria? Para mim, voc no passa de uma estranha.
	Isso seria uma atitude muito normal, se nos basearmos no primeiro e ltimo namorado que ela teve. E s por isso eu no lhe esbofeteei o rosto. Queria saber se voc era igual  ele. Abby no suportaria outro da mesma laia.  De repente, Brittany acalmou-se.  Voc no  como ele, ?
	 Como quem?
	Aquele crpula com quem ela se envolveu. Ty-Qualquer-Coisa. Abby contou-me tudo sobre ele, ontem  noite. Ty caiu como uma ave de rapina sobre sua inocncia. Devo confessar que, quando voc comeou a beijar-me... Bem, pensei "que bela maneira de comear o dia". Mas foi como o vestido de noiva. No combinou comigo. E tambm imaginei que Abby, pobrezinha, se enganara mais uma vez. Tornara a encontrar um homem que no seria feliz s com ela.
	Que s pode ser um idiota!  Shane no contou que ouvira a conversa das duas.
	E que tal convenc-la disso?
	Sua irm s est interessada em uma casa.
	E agora, quem  que est sendo idiota?
Shane retesou-se por causa do cinismo de Brittany.
	S se voc quiser acreditar em uma bobagem dessas  Brit insistiu, com voz suave.
Era mais uma verdade dura que o atingia. Amar era um risco. Sem garantias e que poderia terminar a qualquer momento, deixando o mais forte dos homens em farrapos. Sentiu-se olhando um precipcio, desesperado, antes de resolver atirar-se de novo.
	Acha mesmo que uma mulher interessada apenas em uma casa teria reagido daquela maneira, vendo o nosso simples beijo de bom-dia?  Brit provocou-o.
Shane saiu correndo da cozinha. Era mesmo o sol que acabava de iluminar-lhe a alma escurecida e vazia!
	Abby!  Ele bateu na porta.  Deixe-me entrar!
Silncio.
Pensou em derrubar a porta, mas apenas girou a maaneta e abriu uma fresta.
	Abby?
No houve resposta. Os dois quartos estavam vazios. Shane s ouviu o eco da prpria voz. Abby fugira.
Ele saiu correndo pela rua, olhando para ambos os lados. A trs quarteires da casa, viu-a empurrando o carrinho, apressada.
Correu a toda velocidade e parou a seu lado, bufando.
As lgrimas escorriam pelas faces de Abby, enquanto ela andava o mais depressa que podia, de queixo erguido.
	Abby!
	Afaste-se de mim!
	Deixe-me explicar.
	J ouvi todas as explicaes possveis em minha vida. No quero ouvir mais nada. O que vi foi suficiente.
Belle chorava, agarrada na lateral do carrinho, olhando para trs, para a me.
	Abby!
	Deixe-me em paz, seu degenerado!
Como da primeira vez em que se encontraram, Shane sentiu calafrios. Belle berrava e atraa a ateno dos motoristas e transeuntes.
	Pensei que sua irm fosse voc.
Abby hesitou por um momento e recomeou a andar ligeiro.
	Sei.
	 verdade. Ela estava usando seu bon e suas roupas. Por Deus, de costas no se pode distinguir quem  uma e quem  a outra.
Abby parou e encarou-o.
	Os cabelos dela so diferentes dos meus.
	Ela os prendeu debaixo do bon e virou a aba para trs. Exatamente como voc costuma fazer.  Shane deu um suspiro profundo.  Mas ela no  apetecvel como voc.
	O" qu?
Oh, Senhor, ele estava mesmo querendo ser esbofeteado.
	No como est pensando, no "daquela" maneira. Quem  que tem a mente suja aqui?
	Voc!
	Abby, escute. Quando eu beijei sua irm, no senti nada parecido com o que me envolveu, quando beijei voc.
Abby, atenta, continuou parada.
	O sangue no percorreu meu corpo como se fosse um jato de fogo. Nem meu corao pareceu querer saltar para fora do peito.
At Belle parara de chorar.
	Pareceu-me que havia uma coisa errada  Shane continuou.   Quando eu a beijei ontem  noite, senti como se estivesse fazendo a coisa mais correta, natural e verdadeira deste mundo.
	 mesmo?  ela sussurrou.
	Abby, quando beijei sua irm, no me senti reviver.  como eu me sinto, quando estou a seu lado. Vivo. Com a fora vital crepitando dentro de minhas artrias, exatamente como desejo que continue.
	Shane, o que est querendo insinuar?
	Que estou apaixonado por voc.
Uma luz iluminou o rosto delicado de Abby e apagou-se de imediato.
	No est nada. Voc quer que eu fique com aquela casa, no  verdade? No leve a extremos a postura de irmo mais velho.
	Que absurdo  esse?
	Absurdo nenhum. Voc me leva para passear. Compra e monta um balano para Belle. Protege-me das aranhas e dos locatrios indesejveis.
	Pois eu lhe juro que jamais me senti como seu irmo mais velho!
	No mesmo? Ser que no pretende ajudar-me a conseguir a casa, como tem me ajudado no resto?
	No me importo com a casa.
	Nem eu.
Shane inclinou a cabea na direo de Abby.
	Shane,  claro que eu adorei a doao que recebi. E tambm quero ter um lugar para educar minha filha. Mas se voc imagina que eu me apaixonei por vqc s para satisfazer as condies exigidas, eu entregarei a casa para o primeiro que a quiser. At para a menina de cabelos vermelhos, dona do iguana. Sem a menor hesitao.
	O que est dizendo?
	Que eu sairia de l amanh.
	No, antes.
	Que eu a daria para a moa do rptil.
	Antes.
Abby teve a impresso que ningum mais existia no mundo. S Shane.
	Eu o amo  ela sussurrou.  Eu jamais fingiria estar apaixonada por voc nem por ningum, s para conseguir um bem material. E nem me casaria por isso. No  do meu feitio.
	E se o amor viesse junto?
	No acho que eu diria "no"  ela respondeu, ainda mur murando , se isso acontecesse.
	Sabe de uma coisa, querida? Eu tambm no.
	Ah, Shane, beije-me, por favor.
	No.
	Por favor  ela repetiu.
	No.
	Por qu?
	Por que sei onde esse beijo pode levar-nos. Direto para o meu apartamento. E no  isso que eu quero de voc, Abby.
	No?
Shane fez um gesto negativo com a cabea.
	Quero que seja um sentimento profundo e verdadeiro. Confivel. Eterno. Quero fazer a coisa certa e ser o melhor dos homens.  Sempre. E isso no inclui lev-la s pressas para o meu quarto.
	Mas...
	Quero esper-la no altar e v-la caminhando pela nave central da igreja, enquanto todos a observam, encantados. Quero que use um vestido maravilhoso e que venha com um buque de flores.
Abby riu, apesar das lgrimas.
	Shane, voc detesta multides.
	Mas no vou me importar se houver um milho de pessoas na igreja. Por que tenho certeza que no verei ningum, a no ser Abby Blakely. Quero casar-me com voc. Acordar a seu lado todos os dias. Ouvi-la cantar com alegria. Saber que envelheceremos juntos. Ser um pai para Belle e para outros filhos que possamos ter. Ser o melhor marido do mundo, o que no ser difcil, sendo casado com a melhor esposa.
Abby atirou-se em seus braos e cobriu-o de beijos at onde sua altura permitiu, no pescoo e no queixo.
	Eu a avisei  Shane resmungou, apertou-a de encontro a si e beijou-a na boca.
Belle, de p no carrinho, gritava e lutava para sair. Shane abaixou-se e pegou-a no colo. As duas, a maior e. a menor, encaixaram-se nos braos musculosos.
Shane sorriu, feliz e inteiro.
	Abby, ser que pode perdoar-me porque lhe pedi para casar-se comigo hoje?
	Acho que o perdo no far parte de minhas lembranas, Shane, pelo que voc est me propondo.

	 que hoje  primeiro de abril...
Abby riu com vontade.
	...mas isso no  mentira.
	Eu sei.
	Quero que se case comigo o mais rpido possvel. Assim que tudo estiver arranjado.
	O que tambm no  uma brincadeira.
Eles caminharam de volta para casa, juntinhos. Shane levou Belle no colo e Abby empurrou o carrinho vazio.
Brittany, ansiosa, esperava na varanda. Olhou de um para o outro e sorriu.
	 mesmo o que estou pensando?
	 sim  Abby respondeu, tmida.  Shane pediu-me em casamento.
	Que maravilha!  Brittany gritou, excitada.  Quero ajudar no planejamento e nos preparativos!
Brit voou escada abaixo e abraou todos ao mesmo tempo. A irm, Shane e Belle.
A nova famlia de Shane. Um novo crculo de amor.

EPLOGO

Abby parou em frente do espelho, sem conseguir respirar direito. Embora mal pudesse acreditar, o reflexo confirmava que seus sonhos haviam se tomado realidade. Era a primeira vez que experimentava o vestido totalmente terminado.
	Sra. Pondergrove, como poderei agradecer-lhe?  A velha senhora lhe dera o vestido de presente. A ela, uma quase estranha.
 Mas esteja certa de que a reembolsarei.
A sra. Pondergrove pareceu ofender-se.
	Minha querida, o olhar em seu rosto j  um agradecimento. Alm disso, quando o vestido comeou a ficar pronto, comecei a duvidar de que ele serviria mesmo para a destinatria. Acho que no. Em uma semana ou duas, talvez eu lhe traga outro para fazer. Encontrei um modelo muito bonito em uma revista.
	Deve ser maravilhoso.
Abby no se referia ao vestido, mas sim ao futuro que a aguardava. Uma aventura magnfica a ser partilhada com um homem fascinante. Sua vida viria a concretizr-se como o sonho de todas as mulheres.
	Abby, j provou a roupa?  Brit entrou, belssima, com um traje de dama de honra na cor pssego. Parou de repente e seus olhos encheram-se de lgrimas.  Nunca vi ningum mais linda do que voc.
	Ento olhe-se no espelho, minha irm.  Abby sorriu.
Corrine veio em seguida, mais tranquila, resplandecente. E seu vestido no mesmo tom do de Brit no ficava nada a dever a nenhum desfile de modas. E, como Brit, comoveu-se.
	Parem com isso, vocs duas  Abby repreendeu-as, severa. Vocs vo me fazer chorar tambm e nada manchar este vestido mais depressa de que as lgrimas.
	Acho que tenho mesmo de controlar-me  Brit afirmou, enxugando os olhos com um leno.  Ou tambm irei chorar no casamento e estragar a maquilagem. Sbado j est chegando. Como o tempo passou depressa... Estou to nervosa. Abby, como pode permanecer to serena?
	Porque voc est cuidando de tudo. No tive de preocupar-me com nada.
	Corrine  Brit falou, ansiosa , ainda temos de cobrir o carrinho de Belle de branco e enfeit-lo com laos. E como faremos para ela no sujar o vestido at chegar na igreja? E tambm no sei se conseguirei prender flores nos cabelos de nossa sobrinha.
	Voc  muito preocupada  Corrine afirmou, com um sorriso tolerante.
	Que nada! Mas s vezes  preciso algum como eu, para que as coisas funcionem.
Abby riu e observou um certo ar de tristeza em Corrine. Talvez a vida da irm no houvesse sido muito engraada.
	Bem, senhoras, chega de desfilar os trajes  Brit anunciou. 	Tenho de ir  igreja e ver como farei para prender os ramos no altar. Planejei arranjos de margaridas-do-campo e cravos-de-amor, com uma rosa solitria no meio de cada um. 
Por um momento, Abby sentiu-se transportada para a igreja, passando pelas portas altas. Viu-se caminhando pela nave, com o vestido longo, cuja caudal arrastava-se atrs. Cada fileira de bancos estava ornamentada com um arco, exatamente como Brit descrevera. Flores primaveris caam em profuso de grandes vasos dispostos nos degraus que ladeavam o altar.
Na igreja vazia, s ela mesma e Shane.
Shane estava em p no altar e parecia estar conversando com uma pessoa. Mas no havia ningum a seu lado.
Nisso, ele se virou.
A luz no rosto de Shane traduziu o que ela sempre soube que seria. O sofrimento do passado transformara-se em energia. Ela no o conhecera antes, mas entendeu que ele se tornava um homem melhor.
Mais sensato. Mais terno. Mais forte.
Um dos raros homens que compreendiam o milagre de cada momento. Abby teve certeza, assim que Shane segurou-lhe a mo, que estava na presena do maior dos milagres.
 amor.
	Parece que eu a ouvi dizer que chorar mancharia seu vestido 	Brit comentou.
A irm estouvada aproximou-se e enxugou-lhe o rosto molhado com ternura. Abby fitou-a e percebeu a transformao que ali tambm se operava. Abriu os braos.
As trs irms agarraram-se uma na outra, indiferentes aos vestidos que experimentavam. Choraram, riram e afastaram as lgrimas.
Quando a emoo tornou-se mais amena, elas notaram que a sra. Pondergrove havia sado.
Abby fitou as irms e agradeceu a Deus pelo acontecimento extraordinrio que as unira.
	Brit, voc estava certa. Pssego  a cor ideal para voc.  a nossa cor. Como tambm acertou em preferir pequenas diferenas nos vestidos de vocs duas, de acordo com as personalidades. Ambas danaro a noite inteira.
	Oh, Deus!  Brit exclamou.  No acredito! Entre os preparativos do casamento e a reabertura da padaria, acabei esquecendo de uma coisa. No tenho ningum com quem danar. Eu, Brittany, sem um par!
Abby trocou olhares entendidos com Corrine.
	E para que servem as irms? Vamos tratar logo disso.
As trs trocaram de roupa e, abraadas, saram rumo ao futuro.

FIM

